A polêmica na Google Play Store
A presença de aplicativos que emulam cassinos online na Google Play Store e na App Store tem gerado um intenso debate nos bastidores, envolvendo big techs, reguladores e casas de apostas legalizadas. Um executivo do setor de apostas, que pediu anonimato, classificou a situação como “um tapa na cara de quem quer fazer a coisa certa”, criticando a lentidão das gigantes de tecnologia em remover conteúdos irregulares.
O Google, por sua vez, afirma que “quando identificamos aplicativos que violam nossas políticas ou que não sejam autorizados pela legislação brasileira, agimos removendo-os da loja. Qualquer usuário pode denunciar violações por meio dos nossos canais oficiais”. No entanto, a realidade na prática parece ser mais complexa.
A Linha Tênue entre Cassinos Sociais e Apostas Ilegais
Desde junho de 2025, o Google permite aplicativos de apostas legalizadas em sua loja, enquanto a Apple ainda mantém restrições. Contudo, foram identificados ao menos 162 aplicativos na Google Play e outros 15 na App Store que funcionam de maneira similar a cassinos online. A maioria desses aplicativos opera como “cassinos sociais”, utilizando moedas virtuais que não podem ser convertidas em dinheiro real. Essa prática se enquadra na categoria de “sweeptakes”, jogos onde prêmios são distribuídos aleatoriamente sem cobrança de entrada.
No Brasil, a regulamentação para “sweeptakes” ainda é incerta, embora tenham sido subordinados à Secretaria de Prêmios e Apostas (SPA) do Ministério da Fazenda. O aplicativo “Tiger Drop”, que explicitamente oferecia conversão de prêmios em dinheiro, foi removido pelo Google por ser caracterizado como cassino online, o que exige autorização da SPA.
Enganos e Riscos para os Usuários
Apesar de muitos “cassinos sociais” informarem não permitir apostas com dinheiro real, eles frequentemente vendem moedas virtuais, levando os jogadores a crerem na possibilidade de saque. Compras de pacotes de moedas virtuais podem variar de R$ 2,49 a R$ 5.200. Comentários de usuários na Google Play Store denunciam a natureza enganosa dessas plataformas, com promessas de conversão de moedas virtuais em dinheiro que não se concretizam.
Outras reclamações incluem o rápido esgotamento de moedas gratuitas, a necessidade de compras para continuar jogando, mudanças de idioma na hora da compra e falhas no recebimento de moedas virtuais após o débito em dinheiro. Há ainda jogos que permitem doações entre jogadores, abrindo margens para transações informais. A falta de verificação de idade em muitos desses aplicativos, classificados como “livre”, representa um risco adicional para menores de idade.
O Impacto Econômico e as Ações de Combate
O mercado ilegal de apostas no Brasil representa uma fatia significativa do setor, com faturamento anual estimado entre R$ 26 bilhões e R$ 40 bilhões, resultando em uma perda de arrecadação de R$ 7,2 bilhões a R$ 10,8 bilhões para os cofres públicos. A SPA atua em frentes como a cibernética, financeira, publicitária e regulatória para combater a atuação de jogos ilegais, incluindo acordos de cooperação com o Conar e o Conselho Digital.
A Associação Nacional dos Jogos e Loterias (ANJL) considera que a regulamentação precisa ser ágil para acompanhar a evolução tecnológica do mercado ilegal. A entidade defende que o combate deve focar em meios de pagamento e marketing, para tornar as operações financeiramente inviáveis. A dificuldade dos apostadores em distinguir entre plataformas legalizadas e ilegais, como apontado por pesquisas, agrava o problema, com 8 a cada 10 jogadores relatando essa dificuldade.