A ascensão meteórica da Inteligência Artificial (IA) tem gerado tanto entusiasmo quanto incerteza, especialmente sobre seus impactos no emprego e na inflação. Nos Estados Unidos, o Federal Reserve (Fed) está em meio a um intenso debate para compreender a velocidade e a profundidade dessas transformações, com visões divergentes sobre o futuro da economia.
Essa busca por respostas é crucial, pois a IA já demonstra seu poder disruptivo. O recente anúncio da Block de demitir 40% de seus funcionários, cerca de 4.000 pessoas, devido a uma mudança fundamental na forma como a empresa utiliza a mão de obra, é um sinal claro do que está por vir.
A Incerteza do Federal Reserve
Embora o Fed aceite que a IA trará mudanças econômicas dramáticas, há uma divisão crescente sobre como esses impactos se manifestarão. A principal questão é se a IA será uma força desinflacionária, como alguns defendem, ou se trará pressões inflacionárias.
Tradicionalmente, um aumento nas demissões em massa levaria os bancos centrais a adotar uma política monetária mais flexível. Contudo, a transição para a IA levanta uma resposta diferente, com autoridades ponderando sobre cenários inéditos.
Impacto no Mercado de Trabalho: Um Novo Normal?
Uma das preocupações é que taxas de desemprego mais altas podem se tornar a nova normalidade. Os trabalhadores desempregados poderiam levar mais tempo para encontrar novos postos, enquanto os retornos de capital e salários mais elevados para aqueles que permanecem empregados manteriam a pressão sobre a inflação.
Ao contrário de automações anteriores que afetavam principalmente empregos operacionais, a IA tem potencial para impactar tarefas administrativas e de conhecimento.
- Codificação e Análise de Dados: Assistentes de IA podem melhorar a produtividade, mas também reduzir a necessidade de equipes maiores.
- Setores de Conhecimento: Uma pesquisa da Brookings Institution de 2024 indica que mais de 30% dos trabalhadores dos EUA podem ter metade de suas tarefas profissionais “disruptadas” pela IA.
Jack Dorsey, CEO da Block, ressaltou que a IA, aliada a equipes menores e mais horizontais, está permitindo uma nova forma de trabalhar que muda fundamentalmente a construção e gestão de uma empresa.
Pressões Inflacionárias e Desinflacionárias: O Debate Central
Economistas e formuladores de política monetária apresentam visões contrastantes sobre os efeitos da IA na inflação.
Adam Posen, do Instituto Peterson de Economia Internacional, argumenta que a IA é um choque positivo, mas com pouca desinflação. Ele prevê que os ganhos de capital e os investimentos massivos em IA pressionarão os custos de eletricidade e construção, elevando a inflação.
Por outro lado, Kevin Warsh, um potencial candidato ao Fed, defende que a IA é uma força desinflacionária significativa. Ele acredita que a IA aumenta a produtividade e a competitividade, e que o Fed deveria cortar as taxas de juros para acomodar esses ganhos.
No entanto, essa narrativa encontra ceticismo entre os formuladores de política monetária, que questionam a velocidade com que a IA se traduzirá em práticas de contratação e se o padrão histórico de criação de mais empregos após a substituição por novas tecnologias ainda se aplicará.
O Fed Aprofunda o Estudo da IA
O Federal Reserve está intensificando seus esforços para entender a IA. O número de artigos de pesquisa e discursos de formuladores de política sobre IA e aprendizado de máquina aumentou exponencialmente desde o lançamento do ChatGPT no final de 2022.
A ata da reunião do Fed de janeiro já revelou uma discussão aprofundada sobre produtividade e IA, e suas implicações para a política monetária.
O Dilema da Política Monetária
Como um grupo, os membros do Fed estão longe de apostar na IA como motivo para reduzir as taxas de juros em breve. Embora reconheçam o aumento da produtividade, não estão prontos para atribuí-lo inteiramente à IA, em vez de eficiências alcançadas durante a escassez de mão de obra na pandemia.
A preocupação principal é que a IA possa causar um desemprego estruturalmente mais alto, que não seria facilmente compensado pela redução das taxas sem o risco de uma inflação ainda maior.
- Taxa de Desemprego Natural: A base da estrutura do Fed é uma taxa de desemprego natural de longo prazo (atualmente cerca de 4,2%), abaixo da qual as pressões inflacionárias aumentam.
- Política Monetária e IA: A diretora do Fed, Lisa Cook, alertou que um aumento do desemprego causado pela IA pode não indicar folga econômica, e a política monetária tradicional pode não ser capaz de amenizá-lo sem aumentar a pressão inflacionária.
Contrariando essa visão, Krishna Guha, da Evercore ISI, sugere que a perda do poder de negociação dos trabalhadores, devido à IA, levará a uma queda na taxa de desemprego natural. Isso faria com que os funcionários aceitassem aumentos salariais menores, pressionando a inflação para baixo e justificando cortes nas taxas.
As autoridades do Fed, contudo, pintam um quadro mais complexo: empregos sob pressão para alguns, novo potencial produtivo para outros, ganhos de riqueza impulsionando o consumo, restrições de recursos na construção da IA e altos retornos esperados de investimento, que provavelmente elevarão as taxas de juros subjacentes.
A questão está longe de ser resolvida, e o Fed continua a navegar por um território econômico desconhecido, moldado pela ascensão da Inteligência Artificial.
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Como afirmou o presidente do Fed de Richmond, Tom Barkin, as previsões sobre a IA são muitas, mas a única certeza é que estarão erradas. Resta ao Fed descobrir se serão otimistas ou pessimistas, adaptando-se à medida que avança.