Empresas que utilizam chatbots de inteligência artificial no WhatsApp estão agora diante de uma nova realidade: a cobrança por mensagens enviadas. Uma medida que, embora esperada, pegou muitos de surpresa, impactando desde pequenas operações até grandes volumes de comunicação.
Os custos, que variam de R$ 0,02 a R$ 0,33 por mensagem, podem se transformar em milhões de reais para quem depende intensamente de interações via IA. Esse cenário levanta sérias questões sobre a viabilidade de operar no aplicativo para muitos provedores.
A Decisão do Cade e a Reativação da Cobrança
A virada no jogo ocorreu após uma decisão unânime do Cade (Conselho Administrativo de Defesa Econômica), que rejeitou o recurso da Meta. Em janeiro, a Superintendência-Geral do Cade suspendeu o veto da Meta aos chatbots de IA no WhatsApp, iniciando uma investigação sobre possível conduta anticompetitiva.
A Meta já havia enfrentado reveses semelhantes em outros países, como a Itália, onde optou por cumprir a regulamentação e, simultaneamente, cobrar pelas plataformas. No Brasil, uma liminar manteve a cobrança em suspenso, mas a recente decisão do Cade reativou o plano da empresa.
A Meta justificou a medida afirmando: “Onde formos legalmente obrigados a disponibilizar chatbots de IA por meio da API do WhatsApp, estamos atualizando nossos termos e nosso modelo de preços para que possamos continuar a oferecer suporte a esses serviços.”
Como a Cobrança Será Calculada?
A Meta indica que o cálculo será por mensagem, com um exemplo claro: se um usuário na Itália interage com um provedor de IA e recebe três respostas, serão contabilizadas três cobranças. As mensagens de provedores de IA serão rotuladas como “general_purpose_ai” e cobradas.
Por outro lado, interações de marcas e empresas que usam IA em seus canais de atendimento serão classificadas como “AI_BOT” e ficarão isentas. A falta de clareza sobre o enquadramento tem gerado confusão entre os provedores.
As categorias de cobrança da Meta são “autenticação”, “marketing”, “utilidade” e “serviço”. A categoria de “utilidade” parece ser a mais provável para os chatbots, com preços decrescentes por volume.
Estimativas de Custo: Um Cenário Milionário
Para um volume de 100 milhões de mensagens, a fatura mensal pode chegar a R$ 2.913.004,82. Os valores por envio variam de R$ 0,035 a R$ 0,026, dependendo da faixa de volume.
- Até 250 mil envios: R$ 0,0359516 por envio
- Mais 1.750.000 envios: R$ 0,0343655 por envio
- Mais 15 milhões: R$ 0,0322507 por envio
- Mais 18 milhões: R$ 0,0306646 por envio
- Mais 35 milhões: R$ 0,0285498 por envio
- Mais 30 milhões: R$ 0,0269637 por envio
Esses valores, embora recaiam sobre as plataformas, impactam diretamente o consumidor, já que as empresas podem perder a capacidade de operar no WhatsApp ou repassar os custos.
Reações do Mercado e o Futuro da Concorrência
Empresas como a Zapia expressaram que, pelo entendimento da decisão do Cade, esses preços não deveriam ser aplicados no Brasil. “A decisão determina que a Meta retorne às regras que estavam em vigor antes da política anunciada em outubro do ano passado”, afirmou Juan Pablo Pereira, CEO da Zapia.
A startup espanhola Luzia, por sua vez, comemorou a decisão do Cade, mas diante dos preços impostos pela Meta, considerou inviável continuar operando no WhatsApp. Segundo Pablo Delgado, head de comunicação, os valores “sufocam o desenvolvimento da concorrência entre provedores de serviços de IA”.
A proibição original aos chatbots de IA veio após a Meta alterar as regras da versão corporativa do WhatsApp. A empresa alegava que os chatbots estavam sobrecarregando os sistemas com trocas de mensagens não relacionadas a serviços ou produtos.
Para o Cade, as novas diretrizes podem impedir soluções de IA generativa e configurar dano concorrencial. O conselheiro Carlos Jacques, relator do caso, destacou que restringir a oferta de IA visa “aumentar o valor do ecossistema” da Meta.
A análise da suspensão corre em paralelo à investigação de conduta anticompetitiva. É provável que o conselho considere que a liberação dos chatbots de IA no WhatsApp foi condicionada à cobrança, o que pode trazer novos desfechos para o caso.
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