A recente série documental da Netflix, “Os Dinossauros”, desencadeou um fenômeno inesperado nas redes sociais. O último episódio, que retrata a extinção dos gigantes répteis há cerca de 66 milhões de anos, provocou uma onda de choro, drama e lamentações entre os jovens. Este luto pelos dinossauros, aparentemente anacrônico, levanta questões profundas sobre como as novas gerações encaram o passado e, principalmente, o futuro.
Publicações viralizaram com homenagens aos “queridos” dinossauros, especulações sobre o medo que teriam sentido diante do asteroide e confissões de desolação. Edits no TikTok, com fotos dos dinossauros observando o meteoro ao som de “Let Down” do Radiohead, tornaram-se um símbolo dessa tristeza coletiva.
O Fenômeno do Luto Jurássico Online
A Desolação Digital
A reação da juventude, que nunca conviveu com esses seres pré-históricos, não se trata de nostalgia. É um tipo de luto que se manifesta de forma peculiar no ambiente digital, sendo ao mesmo tempo seguro, performático e catártico.
Um Luto “Seguro”, “Performático” e “Catártico”
O luto pelos dinossauros é seguro porque seu desfecho já é conhecido. Não há a ameaça do imponderável, e as narrativas em livros, filmes e séries oferecem um significado compreensível. Essa busca por narrativas com começo, meio e fim, que o presente muitas vezes não oferece, ecoa o sucesso de podcasts sobre o colapso de civilizações antigas durante a pandemia.
É performático porque se expressa coletivamente nas redes sociais, virando uma “trend”. Declarar tristeza pelo fim dos dinossauros é como participar de uma coreografia ou meme do momento, buscando “hitar” e “farmar aura” para pertencer a um grupo.
Por fim, é catártico. Se o sentimento for genuíno, a pergunta é: choramos pelo T-Rex ou por nós mesmos? Essa ambiguidade aponta para uma tristeza que transcende o evento histórico, mirando nas ansiedades do presente.
O Futuro em Xeque: Niilismo e Imposição
A forma como os jovens vivenciam esse luto pode revelar mais sobre o porvir do que sobre o passado. O filósofo italiano Franco “Bifo” Berardi, em seu livro “Depois do Futuro”, descreve a geração contemporânea como a primeira a não conseguir imaginar o futuro como uma promessa.
Ao contrário de gerações anteriores, que debatiam qual futuro construir, a atual parece não acreditar que haja um futuro digno de esforço. Esse niilismo abre portas para visões perturbadoras.
A Imposição das Big Techs
A Palantir, gigante de tecnologia e segurança, exemplifica essa visão. Em um manifesto recente, seu CEO, Alex Karp, descreve o futuro como um projeto de poder tecnológico, vigilância estatal e supremacia digital. Para ele, debates éticos são “teatrais” e culturas que não acompanham o ritmo são “disfuncionais”.
Essa perspectiva aponta para um futuro como imposição, não como uma construção coletiva. As características dessa visão incluem:
- Dominância tecnológica: A tecnologia como motor principal da sociedade.
- Vigilância onipresente: Controle estatal e digital como norma.
- Supremacia digital: A crença de que a digitalização é o caminho inevitável e superior.
Nostalgia do Futuro: Entre o Passado e o Porvir
A ironia reside na convergência: tanto o luto dos jovens pelos dinossauros quanto a visão das big techs indicam que o mundo está em transformação acelerada. A velocidade dos fatos esmagou o presente, e o futuro parece ser tomado à força.
Dua Lipa e a “Saudade do Que Não Vivemos”
O conceito de “Future Nostalgia” (Nostalgia do Futuro), popularizado por Dua Lipa, reflete essa busca por ressignificar o passado para entender o presente. É como se estivéssemos sempre resgatando algo que não vivemos para nos preparar para o que está por vir.
Para alguns nas redes, o balanço da humanidade leva à conclusão de que “os dinossauros foram extintos por muito menos”. Essa nostalgia do futuro é a saudade de um porvir mais otimista, cancelado pelo aquecimento global, pela ameaça da IA e pelos conflitos globais.
O que o luto pelos dinossauros diz sobre o futuro?
- É mais fácil chorar por um fim que já tem explicação.
- A ansiedade pelo desconhecido é substituída por uma dor “segura”.
- É a “saudade do que a gente não viveu ainda”, como diria Neymar, uma curiosa vontade de conhecer logo o que ainda não aconteceu.
Talvez esse luto seja um exercício mental sobre um fim que se mostra seguro, performático e catártico. É uma forma de nos prepararmos para os desafios vindouros, buscando uma história, quem sabe boa, para contar no futuro.
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