Após mais de um século de espera, a múmia de uma criança inca foi finalmente devolvida à comunidade indígena Kolla na Argentina. Este evento histórico representa não apenas a restituição de restos mortais, mas a reconexão profunda com a identidade e a ancestralidade de um povo.
A jornada do chamado ‘Menino de Chañi’, desde sua descoberta nas alturas andinas até seu retorno, simboliza uma vitória para a justiça cultural e o respeito aos povos originários.
A Descoberta e a Jornada do “Menino de Chañi”
Um Sacrifício Ancestral e um Encontro Congelado
A história do Menino de Chañi começou em 1905, quando seu corpo congelado foi encontrado em uma montanha a quase 5.900 metros de altitude, na província de Jujuy, noroeste da Argentina.
Ele tinha entre 5 e 7 anos e foi sacrificado como parte de um ritual sagrado inca, prática comum para honrar os deuses e garantir a prosperidade da comunidade.
Desde sua descoberta por militares e montanhistas, a múmia foi levada para Buenos Aires, onde permaneceu por décadas.
Mais de um Século em Exposição
Os restos mortais da criança inca foram guardados no Museu Etnográfico Juan B. Ambrosetti, administrado pela Universidade de Buenos Aires (UBA).
Durante mais de cem anos, o Menino de Chañi foi objeto de estudo, mas também de uma crescente reivindicação por parte das comunidades indígenas da região da Puna, no norte do país.
A Restituição e o Reencontro Cultural
O Retorno à Terra Ancestral
A tão esperada devolução ocorreu na última quinta-feira (28), quando a múmia foi transportada do museu na capital argentina para a cidade de El Moreno, em Jujuy.
Lá, a comunidade indígena Kolla celebrou com cerimônias e rituais, marcando um momento de profunda emoção e significado.
O Valor da Identidade e da Memória
Clemente Flores, um líder Kolla, expressou a importância do evento: “Esse menino tem muito a nos contar sobre nossa identidade“.
Ele acrescentou: “Ele é um ser querido, um avô nosso que adormeceu para nos mostrar a história de nossa cultura e modos de vida, alguns dos quais ainda perduram”.
Um Pedido de Desculpas e um Futuro Incerto
Durante a restituição oficial, autoridades universitárias pediram desculpas pela demora em atender às reivindicações.
Ricardo Manetti, decano da Faculdade de Filosofia e Letras da UBA, ressaltou: “Nem tudo é em nome da ciência“, reconhecendo a primazia do respeito cultural.
O destino final da múmia, se será enterrada ou guardada em um local sagrado, ainda não foi determinado pela comunidade, que decidirá seu futuro com base em suas tradições.
Entenda a Devolução em Pontos Chave
- Descoberto em 1905 em uma montanha no noroeste da Argentina.
- Tinha entre 5 e 7 anos quando foi sacrificado em ritual inca.
- Passou mais de cem anos no Museu Etnográfico Juan B. Ambrosetti, em Buenos Aires.
- Restituído à comunidade Kolla de El Moreno, província de Jujuy.
- Autoridades universitárias pediram desculpas pela longa demora na restituição.
Por Que Esta Restituição é Tão Importante?
- Reconhecimento da identidade cultural indígena e seus direitos sobre seus ancestrais.
- Reparação histórica por décadas de posse museológica de um corpo sagrado.
- Fortalecimento dos laços ancestrais da comunidade Kolla com seu passado.
- Estabelecimento de um precedente valioso para futuras devoluções de artefatos e restos mortais a povos originários.
A devolução da múmia do Menino de Chañi é um marco na luta por justiça cultural e no reconhecimento dos direitos dos povos originários.
Mais do que um objeto de estudo, ele agora retorna ao seu lugar de direito, como um símbolo vivo da memória e da resistência de uma cultura milenar, reconectando-se com as raízes de seu povo.