A OpenAI, gigante por trás do ChatGPT, projeta uma imagem de inovação e futuro. Contudo, essa fachada esconde uma realidade menos brilhante, conforme revelado pela jornalista Karen Hao em seu livro recém-lançado no Brasil, ‘O Império da IA’.
Hao, que investigou a empresa por meio de centenas de entrevistas e documentos, afirma que os próprios funcionários da OpenAI sabem que a companhia não tem um plano de negócios sólido. Essa é uma das muitas revelações que pintam um retrato bem diferente da narrativa oficial.
A Surpreendente Confissão Interna da OpenAI
O livro de Karen Hao, ‘O Império da IA’, rapidamente se tornou uma referência para entender a era da inteligência artificial generativa. Nele, a jornalista americana narra a ascensão da OpenAI, expondo detalhes que contradizem sua imagem pública.
Um dos pontos mais sensíveis é a percepção sobre Sam Altman, CEO da OpenAI. Colaboradores importantes da empresa questionam sua dignidade de confiança, sugerindo um ambiente interno complexo e desfavorável à figura de liderança.
Mais alarmante, os planos de negócios da OpenAI, que atraem bilhões em investimentos, são vistos como frágeis. A própria autora destaca que funcionários da empresa confessam, ‘à boca pequena’, a ausência de um modelo de negócios realmente robusto e sustentável a longo prazo.
O Modelo “Imperial” da Inteligência Artificial e Seus Custos
Karen Hao traça um paralelo contundente entre as empresas de IA e os antigos impérios coloniais. Ela argumenta que ambas são movidas por dinâmicas semelhantes de poder e exploração.
As características desse modelo imperial da IA incluem:
- Concentração de poder: O controle da tecnologia se centraliza em poucas mãos.
- Exploração de trabalho e recursos naturais: A necessidade de dados e energia consome recursos de forma massiva.
- Busca por influência política: As empresas buscam moldar políticas e regulamentações a seu favor.
A Aliança com o Poder Estatal e o Uso Militar
A jornalista observa que os traços ‘imperiais’ das empresas de IA se aprofundam. Isso se deve, em parte, à aliança com governos, como o de Donald Trump, que busca promover o uso militar dessa tecnologia.
A diferença entre os antigos impérios e as empresas de IA, no grau de violência, está diminuindo. As companhias estão vendendo suas tecnologias diretamente aos militares, integrando-as a aparatos estatais de guerra.
Conflitos, como a guerra na região do Golfo, servem de laboratório para a IA aplicada a conflitos armados. Isso revelou a disposição da indústria em apoiar tais operações e expôs suas fragilidades financeiras, com o aumento dos preços da energia impactando os custos dos data centers.
IPO e a Falsa Promessa de Transparência
Com a OpenAI se preparando para seu IPO (Oferta Pública Inicial), surge a questão da transparência. No entanto, Karen Hao é cética de que a abertura de capital resolverá os problemas de opacidade da empresa.
Embora uma empresa de capital aberto possa ser relativamente mais transparente, a OpenAI é conhecida por sua estrutura de múltiplas entidades sobrepostas. Isso dificulta enormemente a compreensão de como o dinheiro circula e quem realmente governa a organização.
Portanto, a abertura de capital não deve, na visão da autora, “resolver repentinamente nenhum desses problemas” de governança e fluxo financeiro.
A Ascensão da Oposição e Seus Efeitos
A oposição às empresas de IA tem crescido nos Estados Unidos, com ações contra projetos de data centers e uma crescente desconfiança do público. Esse movimento de base está começando a ter efeitos concretos.
Um exemplo notável é o encerramento do serviço de vídeos Sora pela OpenAI. Karen Hao atribui essa decisão a três fatores interligados, todos influenciados pela ação coletiva:
- Limitação da capacidade computacional: Protestos contra data centers restringem a expansão da infraestrutura.
- Incerteza financeira: Wall Street se preocupa com a reação política e social, duvidando da capacidade das empresas de cumprir promessas.
- Estagnação da demanda do consumidor: As pessoas não desejam essas tecnologias tanto quanto se imaginava, um tipo de ação coletiva passiva.
Desmistificando o Alerta “E a China?”
A narrativa de que os EUA precisam desenvolver a superinteligência antes da China, ou a AGI (Inteligência Artificial Geral), está perdendo fôlego em Washington. Muitos formuladores de políticas se sentem manipulados por esse argumento.
Para Hao, a narrativa da AGI é um mito que prospera no vácuo de informação. À medida que a tecnologia se torna parte da vida das pessoas, o mito perde força, dando lugar a uma base concreta de fatos.
As restrições impostas pelos EUA à China, sob o pretexto da competição pela IA, levaram a China a desenvolver modelos de código aberto. Esses modelos, mais eficientes e gratuitos, são até preferidos por algumas empresas americanas.
Escala Massiva: Uma Escolha, Não Uma Necessidade
Em 2018, a área de IA caminhava para a “tiny AI”, focada em sistemas que aprendiam com poucos dados e consumiam pouca energia. A aposta na escala massiva da OpenAI não foi uma decisão técnica inevitável, mas uma escolha.
Essa escolha foi impulsionada pela dinâmica de competição entre OpenAI, Anthropic, Google e outras. Aumentar a capacidade computacional sobre técnicas existentes oferece um caminho mais previsível e constante para o crescimento, em vez da pesquisa científica, que leva mais tempo.
No entanto, essa estratégia de escala transfere para toda a sociedade os custos do desenvolvimento da IA, em termos de energia, recursos e impacto ambiental.
O Futuro Incerto da OpenAI
As empresas de IA, e a OpenAI em particular, “não têm plano de negócios”, reitera Karen Hao. As projeções de receita para atingir o equilíbrio financeiro são “extraordinárias”, e o sucesso depende de uma “execução praticamente perfeita”.
Contudo, a crescente mobilização social e os riscos financeiros, como o aumento dos custos de energia, tornam essa execução perfeita “muito mais difícil de imaginar”. Os protestos aumentam o risco do negócio e atrasam os planos das empresas.
A pressão da sociedade civil, tanto nos EUA quanto globalmente, é essencial. Ela pode pressionar políticos e dificultar os negócios dessas companhias, forçando uma reavaliação do modelo atual de desenvolvimento da IA.