IA: aliada ou vilã da produtividade?
A percepção de que a Inteligência Artificial (IA) poderia aliviar a carga de trabalho dos funcionários parece estar se desfazendo. Um estudo recente, publicado na renomada Harvard Business Review, sugere o oposto: a IA, em vez de reduzir o volume de tarefas, tem intensificado o trabalho, aumentando seu ritmo e complexidade. A automação, que promete otimizar o tempo, acaba direcionando o período ‘economizado’ para outras atividades, maior supervisão das próprias ferramentas de IA ou para a execução de tarefas complementares.
Ampliação de escopo e novas responsabilidades
A pesquisa, que analisou o comportamento de 200 funcionários em uma empresa de tecnologia nos Estados Unidos, identificou que as tarefas facilitadas pela IA expandiram o escopo das atividades. Pessoas fora do universo da programação passaram a escrever código, pesquisadores assumiram tarefas de engenharia e trabalhadores realizaram atividades que antes seriam terceirizadas. A IA, ao preencher lacunas de conhecimento e oferecer feedback imediato, incentivou os funcionários a ‘experimentar’ e acumular mais responsabilidades, absorvendo funções que antes justificariam suporte adicional.
Efeitos colaterais: sobrecarga e fadiga
Um dos efeitos observados é o aumento da carga de trabalho em atividades de revisão e colaboração. Engenheiros, por exemplo, passaram a dedicar mais tempo à análise e correção de códigos gerados por colegas com o auxílio da IA. Além disso, a capacidade de executar múltiplas tarefas simultaneamente, impulsionada pela IA, pode prejudicar a atenção e exigir verificações constantes, gerando um ciclo de trabalho mais exigente. Embora as empresas possam vislumbrar ganhos de produtividade, o estudo alerta que isso pode mascarar um aumento silencioso na carga de trabalho, levando à fadiga, esgotamento e a uma dificuldade crescente em se desconectar das obrigações profissionais.
O que as empresas precisam considerar
Diante desse cenário, as autoras do estudo, Aruana Ranganathan e Xingqi Maggie Ye, da Universidade de Berkeley, ressaltam a importância de as empresas estabelecerem normas claras para o uso da IA. É fundamental definir o tipo de aplicação, os momentos em que a interrupção do trabalho é necessária e como as atividades podem ou não ser expandidas. Essa estruturação, argumentam, é essencial para garantir que os funcionários tenham momentos de recuperação e reflexão, evitando que a facilidade proporcionada pela IA se traduza em um ciclo de trabalho sem fim.