A Luta Heroica da Nasa para Prolongar a Vida das Sondas Voyager Quase 50 Anos Após o Lançamento

Imagine trabalhar em um projeto que começou antes mesmo dos seus pais nascerem. Essa é a realidade de Nshan Kazaryan, um engenheiro de 25 anos da Nasa, encarregado de se comunicar com as sondas espaciais Voyager 1 e Voyager 2. Lançadas em 1977, essas naves-irmãs estão em uma corrida contra o tempo, e a Nasa está empenhada em prolongar a vida das sondas Voyager pelo maior tempo possível.

Assim como os seres humanos, as naves espaciais envelhecem e desenvolvem problemas. Manter essas resistentes, mas antigas, sondas operacionais exige uma dose imensa de engenhosidade e paciência por parte da equipe do Laboratório de Propulsão a Jato da Nasa, na Califórnia.

Cada comando enviado às Voyager leva dias para receber uma resposta. A Voyager 1 está a quase 25,7 bilhões de quilômetros de distância, enquanto a Voyager 2 está a cerca de 21,4 bilhões de quilômetros. São distâncias que desafiam a compreensão humana.

As sondas, que outrora nos enviaram imagens deslumbrantes de Júpiter e Saturno, agora exploram o espaço interestelar, tendo a Voyager 1 cruzado essa fronteira em 2012 e a Voyager 2 em 2018. O objetivo é coletar dados sobre o que existe entre as estrelas, mas a tarefa é cada vez mais difícil.

Os Desafios Crônicos de Manter as Sondas Vivas

Três problemas crônicos estão lentamente levando as sondas Voyager ao seu fim inevitável. A equipe da Nasa, descrita como “piratas” por Kareem Badaruddin, gerente da missão, precisa operar perto do limite para ter alguma chance de sucesso.

1. Linhas de Combustível Entupidas

Um dos maiores problemas é o entupimento das linhas de combustível por resíduos de silicone. Isso impede que a hidrazina, o propelente, chegue aos propulsores da espaçonave. É como “artérias obstruídas pelo colesterol”, mas no espaço.

Se um número excessivo de propulsores falhar, a sonda não conseguirá manter sua antena apontada para a Terra. Sem essa comunicação vital, a missão estaria perdida para sempre. Para mitigar, os propulsores são acionados com menos frequência e as linhas de propelente são alternadas periodicamente.

2. A Ameaça do Congelamento

Outro desafio é manter as linhas de combustível aquecidas. A hidrazina congelada bloquearia as linhas e danificaria os propulsores. As sondas possuem aquecedores para evitar isso, mas eles dependem de uma fonte de energia cada vez mais escassa.

3. Escassez Crítica de Energia Elétrica

As baterias de plutônio das sondas, conhecidas como geradores termoelétricos de radioisótopos (RTGs), produzem energia convertendo o calor do decaimento radioativo. Originalmente, cada Voyager gerava cerca de 470 watts.

Com o passar das décadas, a potência diminuiu drasticamente. A Voyager 2 opera com 216 watts, e a Voyager 1 com um pouco menos. Isso forçou o desligamento de instrumentos científicos, restando apenas três na Voyager 2 e dois na Voyager 1.

A Manobra “Big Bang”: Um Salto de Fé Elétrico

Diante da diminuição da energia, a equipe da Voyager precisou de uma solução ambiciosa. O engenheiro David Woerner sugeriu uma abordagem radical: o “Big Bang”.

Essa iniciativa envolvia implementar várias mudanças elétricas simultaneamente para equilibrar as necessidades de calor e energia, reduzindo o consumo geral. Após nove meses de análise, os engenheiros decidiram que os benefícios superavam os riscos.

A operação começou pela Voyager 2, que estava em melhores condições de energia. O processo foi dividido em três etapas para minimizar os riscos de perder a espaçonave:

  • Primeira etapa (Maio): A sonda recebeu a ordem de mudar para a nova configuração por 40 minutos, testando a funcionalidade de sistemas nunca antes ativados.
  • Segunda etapa (Junho): A Voyager 2 permaneceu na nova configuração por seis horas, verificando se as previsões de temperatura estavam corretas.
  • Terceira etapa (Mês Passado): A mudança tornou-se permanente, consolidando as economias de energia.

Essa audaciosa manobra economizou cerca de 10 watts de potência na Voyager 2, o suficiente para prolongar sua missão em aproximadamente dois anos, até 2031. A equipe espera concluir um processo similar na Voyager 1, visando estender sua vida útil até 2030.

Descobertas no Espaço Interestelar e o Futuro Incerto

Embora as Voyagers não capturem mais fotografias coloridas desde 1990, elas continuam a fazer descobertas cruciais. Em meados de 2020, a Voyager 1 observou uma grande e estranha alteração no campo magnético e na densidade do plasma do espaço interestelar.

Com o aumento de energia proporcionado pelo “Big Bang”, engenheiros e cientistas ponderam reativar alguns instrumentos científicos inativos. Contudo, essa decisão é delicada, pois pode colocar a espaçonave em risco.

Linda J. Spilker, cientista planetária que estava na missão desde seu lançamento, reflete sobre o futuro. Com um orçamento anual de US$ 5 milhões para as missões Voyager, a equipe continua dedicada. Spilker expressa um desejo profundo: “Quero estar presente quando cada Voyager silenciar e nós, como equipe, nos despedirmos.”

A saga das sondas Voyager é um testemunho da persistência humana e da busca incessante por conhecimento. Cada dia adicional de operação representa uma nova oportunidade para desvendar os mistérios de nosso universo, mesmo que o fim seja inevitável.

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