IA na escrita de colunas: ferramenta ou traição ao leitor?
A pergunta sobre o uso de Inteligência Artificial (IA) nas atividades profissionais tornou-se onipresente. No universo da escrita, especialmente para colunistas, o debate ganhou força após uma polêmica no jornalismo, levantando questões sobre a autoria e a essência do texto opinativo. Carlos Affonso Souza, em sua análise, explora as nuances do termo ‘usar IA’ e os limites éticos e criativos dessa tecnologia.
O ‘usar’ IA: um espectro de aplicações
A discussão foi desencadeada quando uma colunista, questionada sobre a alta probabilidade de escrita automatizada em seus textos, revelou o uso de ferramentas de IA como apoio. Segundo ela, o conteúdo, a opinião e a responsabilidade final são inteiramente seus, e a IA é utilizada para otimizar seu tempo. Souza concorda que o verbo ‘usar’ abrange uma vasta gama de aplicações, desde a pesquisa e sumarização de informações até a geração de rascunhos descritivos. Ele próprio utiliza IA para resumir textos, comparar documentos e identificar plantas, mas ressalta que a terceirização da escrita propriamente dita, especialmente a opinativa, não tem funcionado para ele.
A IA como coautora: um caminho perigoso para a opinião
Para Souza, a IA, até o momento, soa tendenciosa aos lugares comuns quando se trata de escrever colunas. As opiniões, o estilo e a sensibilidade do autor são elementos cruciais que a IA, em sua visão, ainda não consegue replicar de forma autêntica. A escrita de uma coluna, argumenta, é um processo intrinsecamente ligado ao pensamento, um exercício de “fazer e desfazer” onde as ideias se moldam ao texto. Terceirizar essa atividade mental profunda, ditando um texto para a IA, pode significar a perda da essência do que torna uma coluna valiosa: a perspectiva genuína do autor.
Produtividade versus autenticidade: o dilema do leitor
O debate expõe um paradoxo: enquanto o uso de IA é frequentemente visto como um avanço para a produtividade em diversas áreas, na escrita opinativa, ele pode gerar repulsa. O leitor busca a voz, o estilo e a vivência do autor. Quando a IA assume um papel central, há o risco de que a personalidade do escritor se dilua, levantando a questão sobre o que se ganha e o que se perde nesse processo. A curadoria, a revisão e a responsabilidade final permanecem com o autor, mas a quantidade de sua ‘assinatura’ no texto final é diretamente influenciada pela forma como ele interage com as novas ferramentas.
O futuro da escrita: IA como software, não como ‘fantasma na máquina’
Souza projeta que as IAs se tornarão ferramentas tão comuns quanto um software de edição de texto. No entanto, ele adverte contra a ideia de que a IA se torne um ‘ghostwriter’, assumindo a atividade mental de pensar enquanto se escreve. Em 1949, Gilbert Ryle cunhou o termo ‘fantasma na máquina’ para criticar a dualidade mente-corpo. Se a IA privar o escritor da luta criativa e reflexiva que molda o texto, o resultado pode ser a inversão: o fantasma (a IA) controlando a máquina (o processo de escrita), em detrimento da autenticidade e profundidade que caracterizam uma boa coluna de opinião.