O Desafio da ‘Missão Chip’ Brasileira
A ambição de fabricar chips no Brasil, essencial para a existência humana na era digital, é comparada por Marcelo Zuffo, diretor do InovaUSP e professor da Escola Politécnica, a uma missão espacial: “Nós estamos, guardadas as proporções, lançando um foguete para Marte”. Em entrevista ao podcast Deu Tilt do UOL, Zuffo detalhou os obstáculos para a criação de mini fábricas de chips no país, as chamadas PocketFab.
Ansiedade Nacional e a Ousadia da Engenharia
Um dos maiores desafios, segundo Zuffo, não é apenas técnico, mas também psicológico: a “ansiedade nacional”. Ele ressalta que o Brasil possui conhecimento em diversas etapas da cadeia produtiva e que a meta é ter a fábrica em operação ainda este ano, com o apoio de instituições como o SENAI, CNPq e as Forças Armadas. A inspiração para essa ousadia vem da própria engenharia brasileira, que demonstrou capacidade de inovação e coragem durante a pandemia de Covid-19, ao desenvolver soluções como ventiladores mecânicos. “Durante a pandemia, a gente fez ventilador. Disseram, ‘Ah, professor, vão prender vocês'”. Zuffo defende que a responsabilidade faz parte do papel do engenheiro.
Tecnologia de Chips: Essencial para a Sobrevivência Humana
Zuffo enfatiza a dependência global dos semicondutores, que movimentam cerca de metade do PIB mundial e estão presentes em praticamente todos os dispositivos modernos. Mais do que um motor econômico, a tecnologia de chips é vista por ele como um fator determinante para a “própria existência do ser humano no planeta Terra”. Ele argumenta que, sem essa capacidade, o enfrentamento de crises como a pandemia teria sido ainda mais catastrófico.
Por que Mega Fábricas Não São a Solução para o Brasil
O diretor da USP critica o modelo de “megafábricas” de chips, que exigem investimentos bilionários, consomem grandes volumes de água e energia, e geram resíduos tóxicos. Para ele, essas instalações são insustentáveis ambiental e economicamente para o Brasil, além de serem pouco flexíveis. Zuffo aponta que a concentração dessas fábricas na Ásia se deve, em parte, à aceitação de níveis de poluição “absurdos”.
PocketFab: Soberania e Controle do Processo Fim a Fim
As PocketFab surgem como uma alternativa “barata, limpa e flexível” para a produção de semicondutores no Brasil. Zuffo defende que a soberania tecnológica vai além da matéria-prima, exigindo o “domínio absoluto do processo fim a fim”. Atualmente, o Brasil depende da importação de milhões de chips anualmente, mesmo possuindo os recursos naturais necessários. A colaboração internacional e o aprendizado com centros de excelência globais, como Stanford e Berkeley, são vistos como estratégias complementares para o avanço da indústria nacional.