A Inteligência Artificial (IA) promete revolucionar o mundo, mas um movimento de contestação surpreendente está ganhando força. Longe dos debates acadêmicos, a rebelião contra a IA emerge da base eleitoral de Donald Trump nos Estados Unidos, impulsionada por preocupações muito concretas.
Essa onda de insatisfação, que já se reflete na política americana, pode em breve influenciar decisões cruciais sobre a infraestrutura tecnológica no Brasil. A questão central não é mais se a IA virá, mas como ela será implementada e a quem servirá.
Onde a Confiança na IA Desmorona?
Um estudo do Financial Times revela que mais de 60% dos eleitores de Trump veem o avanço da IA com preocupação. Além disso, quase 80% deles clamam por mais regulação para a tecnologia, evidenciando um ceticismo profundo.
Essa realidade contrasta drasticamente com a China, onde 87% da população confia na IA, segundo a Edelman. No Brasil, a confiança é intermediária, atingindo 67%, mostrando uma percepção dividida.
As diferenças são explicadas por fatores culturais e políticos, mas também pela narrativa. Nos EUA, a IA é frequentemente vendida como uma superinteligência disruptiva, gerando mais medo que otimismo.
Já a China adota uma abordagem mais silenciosa, integrando a IA gradualmente e re-qualificando sua força de trabalho. O país asiático também promete modelos abertos e não hesita em impor regulamentações para proteger seus cidadãos.
Os Pontos de Tensão nos EUA
A revista Time destacou a crescente polarização com a capa “The People vs AI”. Diversas vozes, de pastores a ex-pesquisadores, levantam questionamentos cruciais sobre o impacto da IA.
As preocupações abrangem áreas como:
- Empregos: O temor da substituição de mão de obra.
- Saúde Mental: Impactos psicológicos do uso excessivo e da dependência tecnológica.
- Democracia: Riscos de desinformação e manipulação eleitoral.
- Espiritualidade: Questões éticas e existenciais levantadas pela inteligência artificial.
Contudo, o principal catalisador da revolta é a infraestrutura física da IA: os data centers. Essas construções colossais estão gerando perturbações reais para as comunidades.
Eleitores conservadores do movimento Maga, em especial, estão se revoltando contra:
- Consumo Massivo de Eletricidade: A sobrecarga das redes de energia.
- Pressão sobre o Abastecimento de Água: O uso intensivo de recursos hídricos para resfriamento.
- Promessa de Emprego Não Cumprida: A frustração com a escassez de vagas locais geradas.
A Rebelião Chega à Política
A insatisfação com os data centers já se reflete nas urnas. Candidatos Democratas têm ganhado popularidade ao criticar abertamente a expansão descontrolada da IA.
Curiosamente, alguns políticos republicanos também desafiam a Casa Branca. O governador da Flórida, Ron DeSantis, propõe limites à expansão de data centers, unindo-se, neste ponto, a Bernie Sanders.
E o Brasil? Entre Oportunidade e Alerta
No Brasil, o debate sobre a infraestrutura da IA ganha forma com a política do Redata. Articulada pelos Ministérios da Fazenda e do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, a iniciativa prevê incentivos fiscais para atrair data centers ao país.
O governo federal argumenta que o Brasil processa 60% de seus dados fora e possui vantagens comparativas. Entre elas, destacam-se a energia renovável e o potencial de expansão para atrair investimentos estrangeiros.
As justificativas são plausíveis e o Brasil tem uma janela de oportunidade. No entanto, pesquisadores e organizações da sociedade civil levantam críticas significativas ao projeto.
Embora o Redata preveja contrapartidas para o mercado brasileiro, muitos as consideram insuficientes. Há um temor de que a política se torne apenas mais um benefício para grandes empresas estrangeiras, sem retorno significativo para a população.
O grande receio é que o Brasil se transforme em um celeiro de data centers. Isso poderia resultar em um consumo elevado de energia e água, com poucos empregos locais, servindo majoritariamente aos interesses de plataformas estrangeiras para suas operações globais.
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A rebelião contra a IA é um sinal claro de que a população global exige mais transparência e controle sobre o avanço tecnológico. Para o Brasil, é um momento crucial para equilibrar o desenvolvimento com a proteção dos interesses nacionais e de seus cidadãos.