Por mais de 4.000 anos, os cavalos têm sido companheiros da humanidade, mas o mistério de como eles produzem seus sons mais característicos permaneceu. Agora, uma nova pesquisa surpreendente revela que, quando um cavalo relincha, ele está na verdade assobiando e cantando ao mesmo tempo. Esta descoberta redefine o que sabíamos sobre a vocalização equina.
Publicado na revista Current Biology, o estudo desvenda a mecânica vocal desses animais, desafiando concepções antigas sobre a produção de sons graves e agudos em grandes mamíferos.
A Descoberta de Sons Duplos no Relincho
Elodie Briefer, professora associada da Universidade de Copenhague e uma das autoras da pesquisa, notou algo incomum há mais de uma década. Ao analisar um espectrograma de um relincho, ela identificou dois sons distintos acontecendo simultaneamente.
Até então, a crença era que cavalos produziam frequências muito mais altas do que o esperado para seu tamanho. A novidade foi a percepção de que, abaixo do tom agudo, existe um tom grave.
O Mistério do Relincho Aparentemente Agudo
Geralmente, animais grandes possuem laringes e pregas vocais maiores, que vibram lentamente para produzir sons graves. Os relinchos agudos dos cavalos pareciam uma exceção a essa regra.
Briefer publicou sua descoberta inicial em 2015, mas a comunidade científica demandava provas mais concretas sobre a origem desses dois tons. O novo estudo, portanto, aprofundou-se na mecânica da laringe equina.
Como Cavalos Produzem Sons Duplos
Para desvendar esse enigma, os pesquisadores empregaram uma combinação de técnicas avançadas:
- Endoscopia: Usaram uma câmera endoscópica para filmar as laringes de cavalos em ação, observando o movimento das pregas vocais.
- Modelo Biomecânico: Construíram uma máquina que replicava o processo biomecânico de um relincho, conectando uma laringe de cavalo a um fluxo de ar.
- Teste com Hélio: Substituíram o ar comprimido por hélio para observar como isso afetava a frequência dos sons.
A Laringe em Ação: Canto e Assobio
Os resultados foram claros e fascinantes:
- Para os sons graves, as pregas vocais dos cavalos vibravam, de forma similar aos humanos quando cantam.
- Para os sons agudos, as estruturas da laringe permaneciam imóveis. O som era produzido pela passagem forçada do ar, usando a laringe como um apito aerodinâmico.
O Teste Definitivo com Hélio
Tecumseh Fitch, professor da Universidade de Viena e coautor, descreveu o teste com hélio como a prova final. Sons produzidos por vibração física (como cordas vocais) mantêm a frequência no hélio, enquanto sons de apito se tornam mais agudos.
Quando os pesquisadores usaram hélio na laringe do cavalo, a frequência aguda subiu drasticamente. Isso confirmou que a parte aguda do relincho é, de fato, um assobio.
Embora vocalizações semelhantes tenham sido vistas em roedores, esta é a primeira vez que é documentada em um animal de grande porte.
Leia mais sobre as últimas tendências em nossa categoria: Tecnologia no Observador Livre.
Essa pesquisa é um marco para o entendimento das vocalizações equinas, abrindo portas para novos estudos sobre a evolução e os significados por trás dos sons que os cavalos emitem. Compreender melhor a comunicação desses animais pode, inclusive, melhorar seu bem-estar.
Como observou Sue McDonnell, professora da Universidade da Pensilvânia, decifrar o que os cavalos estão tentando dizer é crucial para quem trabalha com eles, especialmente considerando que muitas vocalizações em contextos domésticos estão ligadas ao estresse.