Impacto Diferenciado por Gênero na Internet
Um estudo recente, ao qual a coluna teve acesso, revela que a exposição a conteúdos controversos nas redes sociais afeta meninos e meninas de maneiras distintas no Brasil. Enquanto os meninos são mais expostos a materiais adultos, casas de apostas e aplicativos de relacionamento, as meninas se deparam com um volume maior de posts sobre drogas, automutilação e suicídio. “A gente percebe que o gênero também é importante para entender como crianças navegam pela internet, o que que elas fazem e como são impactadas”, explica Priscilla Branco, diretora de opinião pública da Ipsos no Brasil.
ECA Digital e a Busca por um Ambiente Online Mais Seguro
A pesquisa surge em um momento crucial, com a iminente entrada em vigor do Marco Legal para a Internet de Crianças e Adolescentes, conhecido como ECA Digital. Este conjunto de normas visa tornar o ambiente online mais seguro, impondo obrigações a serviços e produtos digitais, incluindo redes sociais. Uma das principais exigências será a verificação da idade dos usuários para garantir que crianças e adolescentes recebam conteúdos apropriados. “A internet vai mudar a partir de 17 de março no Brasil. Ela já mudou a partir de 10 de dezembro na Austrália. Para garantir que o usuário tem a idade adequada para aquele conteúdo, você precisa verificar todos os usuários”, afirma Luis Felipe Monteiro, vice-presidente da Unico.
Algoritmos e Interesses: A Força Motriz por Trás dos Conteúdos
A disparidade na exposição a conteúdos controversos entre os gêneros pode ser explicada pelos diferentes interesses de meninos e meninas. Segundo Priscilla Branco, citando o psicólogo Jonathan Haidt, autor de “A Geração Ansiosa”, as meninas tendem a buscar conexões e ampliar suas redes sociais, enquanto os meninos se concentram em jogos e entretenimento. Os algoritmos, por sua vez, “se encarregam de bombardear as crianças e adolescentes com conteúdos controversos dentro da esfera de interesse deles”. O estudo aponta que cenas de violência extrema aparecem para um terço dos jovens, seja por interesse próprio em filmes e séries com esse teor, seja por surgirem aleatoriamente em suas timelines.
Desafios da Supervisão Parental e a Realidade dos Perfis Alternativos
A pesquisa também destaca que o contato com situações inapropriadas e ilícitas se torna mais frequente com o aumento da idade. Além disso, foi observada uma disseminação de perfis alternativos entre crianças e adolescentes, com quase 100% deles presentes nessas plataformas e com uma média de cinco contas em diferentes sites. “Com mais de um perfil, duplica a possibilidade de receber contato [de pessoas estranhas], de ver conteúdos controversos. Existe uma parcela significativa de pais que estão alienados em relação ao que os filhos fazem na internet”, alerta Priscilla Branco. A supervisão parental faz diferença, mas a pesquisa indica que apenas um pouco mais da metade dos pais (55%) afirma saber muito sobre as atividades online de seus filhos. Os jovens, por outro lado, atribuem a falta de descoberta dos pais a desatenção, falta de conhecimento sobre tecnologia ou uso encoberto.
Letramento Digital e Conexão Familiar como Ferramentas de Proteção
“Quanto mais os pais têm consciência do nível de risco do ambiente em que o filho está e quanto mais próximos os pais estão dessas plataformas acessadas pelos filhos, menor é a exposição desses filhos a conteúdos controversos. O inverso também é verdadeiro”, resume Luis Felipe Monteiro. A falta de importância dada pelos adultos às atividades online de crianças e adolescentes está ligada a uma “diferença geracional”. Assim, o letramento digital e a disposição dos pais em acompanhar os filhos nos ambientes digitais são cruciais para mitigar os riscos, indo além da simples fiscalização.