Descoberta Inesperada em Arquipélago Protegido
Em uma reviravolta surpreendente para a botânica brasileira, pesquisadores da Unicamp (Universidade Estadual de Campinas) e do Jardim Botânico do Rio de Janeiro anunciaram a redescoberta da Begonia larorum, uma espécie de planta que não era vista há mais de cem anos e figurava nas listas como extinta. O achado ocorreu na Ilha de Alcatrazes, um arquipélago no litoral norte de São Paulo, conhecido por sua rica biodiversidade e por ser uma área de proteção ambiental.
Um Legado de Luederwaldt e a Luta pela Conservação
A Begonia larorum, endêmica da formação insular de Alcatrazes, foi descrita pela primeira vez na década de 1920, a partir de exemplares coletados pelo zoólogo alemão Hermann Luederwaldt. Desde então, a planta desapareceu do radar científico, levando os pesquisadores a acreditarem em sua extinção local. A descoberta foi detalhada em um artigo publicado na revista Oryx – The International Journal of Conservation, assinado por Gabriel Sabino, doutorando da Unicamp, e seu orientador, o professor Fábbio Pinheiro, além de outros colaboradores.
Expedições Revelam Vida Oculta
O projeto de levantamento florístico da Ilha de Alcatrazes, iniciado em 2022 com apoio da Fapesp, foi o gatilho para a redescoberta. Em fevereiro de 2024, Gabriel Sabino avistou um único indivíduo da planta em uma área de sub-bosque na face sul da ilha. “Fiquei surpreso”, relata Sabino. “Encontramos um indivíduo só, sem flor, e conseguimos fazer cinco clones [a partir de partes da planta] e cultivá-los no laboratório na Unicamp”. Subsequentemente, novas expedições em setembro de 2024 revelaram uma população com 19 indivíduos, sendo 17 em fase reprodutiva, um feito celebrado pela equipe.
A Resiliência da Ilha de Alcatrazes
A Ilha de Alcatrazes, a maior do arquipélago homônimo, tem um histórico complexo de ocupação e impactos ambientais, incluindo o uso pela Marinha para treinamento de tiros e a proliferação de espécies exóticas. No entanto, a população de Begonia larorum foi encontrada em uma área de difícil acesso e com distribuição restrita, o que pode ter contribuído para sua sobrevivência. O estudo revelou que a planta é mais adaptada à escassez de água, com raízes robustas e hábitos rupícolas, características que a diferenciam de espécies continentais.
Olhando para o Futuro da Conservação
A redescoberta da Begonia larorum é considerada crucial para expandir o conhecimento sobre a ecologia e evolução da espécie. Os pesquisadores planejam análises filogenéticas e biogeográficas, além de estudos sobre interações bióticas, como a relação com polinizadores. O objetivo é também entender a capacidade de resistência da planta diante das mudanças climáticas, utilizando a ilha como um modelo para prever o futuro do planeta. A equipe solicita que a espécie seja incluída na Lista Vermelha da IUCN de Espécies Ameaçadas.