A jornada acadêmica para mães pesquisadoras é frequentemente marcada por sobrecarga e invisibilidade, uma luta constante pela permanência e por equidade. Histórias como a de Cristiani Derner, que só ingressou na universidade anos após ter sua filha, ilustram a realidade de muitas que enfrentam barreiras adicionais para além dos desafios já impostos às mulheres.
Este cenário, porém, começa a mudar com o surgimento de projetos e políticas que visam apoiar essas mulheres. Embora promissores, a presidente da Capes, Denise Pires de Carvalho, reconhece que esses movimentos ainda são pontuais e carecem de uma política estruturante e sistêmica nas universidades.
A Luta por Permanência e Equidade na Academia
Ser mãe na universidade significa estar em uma batalha contínua para não ser excluída. A busca não é por tratamento especial, mas pela garantia plena do direito à educação e às oportunidades que ela oferece.
O impacto da maternidade na carreira acadêmica é visível, especialmente no chamado “efeito tesoura”, onde a presença feminina diminui significativamente nos níveis mais altos da trajetória de pesquisa.
Iniciativas Nacionais em Destaque
No âmbito nacional, o Programa Aurora da Capes, lançado em março, é um passo importante. Ele oferecerá entre 200 e 300 bolsas para professoras de pós-graduação grávidas ou com filhos de até dois anos, prevendo a contratação de pesquisadores assistentes.
Segundo Denise Pires de Carvalho, a iniciativa busca evitar que a maternidade afaste essas mulheres da pesquisa. Contudo, Vanessa Suany, diretora-executiva da Ampet, questiona seu alcance, afirmando que estudos indicam que o impacto das crianças na vida das mães estudantes se estende até, pelo menos, os seis anos de idade.
Ações Locais que Transformam Vidas
Universidades como a UFRN e a UFRJ têm desenvolvido projetos significativos:
- Na UFRN, o edital Mães Pesquisadoras de 2024 financiou projetos de professoras com filhos, ampliando o número de contempladas de 15 para 40. Outro edital de 2025 selecionou 15 mães estudantes da graduação, oferecendo bolsa de iniciação à pesquisa com apoio mantido até a conclusão.
- Thallyana Souza, aluna de ciência e tecnologia na UFRN, destaca que o projeto “estimula a valorização e inclusão de nós, mães, na pesquisa”. A pró-reitora Silvana Zucolotto enfatiza a importância de “dar oportunidade na base” para que essas mulheres possam avançar na carreira.
- O projeto Mães na Universidade da UFRJ, iniciado em 2021, oferece suporte coletivo e gratuito. Suas ações incluem:
- Oficinas e rodas de conversa.
- Apoio psicológico.
- Preparação para ingresso na pós-graduação.
Mithaly Corrêa, uma das idealizadoras do projeto e mãe de três filhos, levou dez anos para concluir sua graduação em geografia, mas conseguiu “graças à rede de apoio e às ações do projeto”. Ela ressalta a carência de infraestrutura adequada e a vulnerabilidade de muitas graduandas.
Rumo a uma Política Sistêmica
No Ministério da Educação (MEC), há uma expectativa de que um relatório do Grupo de Trabalho para a Política Nacional de Permanência Materna e o Censo da Pós-Graduação resultem em diretrizes para políticas nacionais. Algumas das ideias em discussão incluem:
- Extensão do tempo de jubilamento para mães estudantes.
- Oferta de bônus em editais internos.
- Instalação de Cuidotecas, espaços de suporte para mães e pais universitários.
Apesar do avanço com iniciativas pontuais, a necessidade de uma articulação interministerial e de políticas estruturantes é urgente para que a maternidade não seja um fator de exclusão no ambiente acadêmico, garantindo que o talento e a capacidade das mães pesquisadoras sejam plenamente reconhecidos e desenvolvidos.