É possível um país riquíssimo em recursos naturais abrir mão do desenvolvimento? A história recente do Brasil sugere que sim, e o caso da monazita, um mineral estratégico, é um exemplo doloroso. Por décadas, o país repetiu um ciclo vicioso de exploração predatória e perda de valor agregado, custando bilhões à nação.
Essa narrativa, que se estende do século passado aos dias atuais, expõe a fragilidade de nossas políticas e a persistência de um modelo extrativista. Entender o que aconteceu com a monazita é crucial para compreender os desafios do desenvolvimento brasileiro.
A Tragédia da Monazita: Uma História de Predação
Boris Davidovitch: O Início da Devastação
Em 1940, o russo Boris Davidovitch chegou ao Brasil com um objetivo: explorar monazita em Guarapari (ES). Em apenas um ano, ele dominou o mercado de forma predatória, deixando um rastro de destruição.
Ele destruiu cerca de 70 km de praias e restingas, operando um esquema de evasão fiscal. Vendendo para si mesmo, manipulava preços e impostos para valores irrisórios.
Davidovitch foi acusado de subornar autoridades e de usar trabalho escravo, continuando a exportar clandestinamente. Mesmo com uma CPI em 1956, a predação lhe rendeu US$ 227 bilhões.
Ele morreu bilionário em Paris em 1960. Após sua morte, funcionários da empresa enterraram o maquinário e queimaram todos os documentos, apagando provas.
O Legado da Predação e a Perda Estratégica
O que sobrou de monazita foi processado em São Paulo, inicialmente pela Orquima e depois pela estatal Nuclemon. Por um tempo, o Brasil conseguiu dominar a cadeia de separação de terras raras.
Essa capacidade era estratégica e rara no mundo, mas foi desmantelada a partir de 1990. O que restou foi um resíduo radioativo de 11 toneladas, conhecido como “Torta 2”, enviado para Caldas (MG), onde permanece até hoje.
A monazita é fonte vital de terras raras e tório, usado para urânio-233. Contudo, ao ser exportada de forma bruta, seu valor é mínimo: menos de US$ 10 por quilo.
Com um mínimo de processamento, que o país não consegue mais fazer, o valor sobe dez vezes, para US$ 100 o quilo. Na forma final, como óxido de térbio, chega a US$ 1.000 o quilo.
Essa diferença de valor ressalta o imenso potencial econômico que o Brasil perde ao não processar seus próprios minerais. A história da monazita é um espelho do descaso com o desenvolvimento.
O Alto Preço de Exportar Bruto
A Repetição de um Erro Histórico
A monazita brasileira é hoje cobiçada globalmente por suas terras raras. No entanto, sem capacidade de processamento local, todo o valor agregado é gerado no exterior.
O mais irônico é que, após décadas sem vender monazita bruta, o Brasil voltou a exportá-la este ano, a partir do Rio de Janeiro. A história se repete, custando bilhões ao país.
O Brasil fica com os buracos e os impactos ambientais, enquanto quem compra e processa lucra bilhões. Este ciclo poderia ser rompido com uma política mineral estratégica.
Vozes Ignoradas e o Caminho do Futuro
O país teve vozes importantes que buscaram uma refundação da política mineral. Entre eles, o almirante Álvaro Alberto da Motta e Silva, o presidente Juscelino Kubitschek e o professor Diógenes Moura Breda.
Breda, da Universidade Federal de Uberlândia, tem artigos recentes que criticam a lei sobre terras raras em tramitação no Congresso, classificando-a como um “erro estratégico”.
Suas análises alertam para os perigos de uma legislação que não prioriza o processamento interno e a geração de valor. Ignorar essas vozes é perpetuar o ciclo de subdesenvolvimento.
Para o Brasil realmente se desenvolver, é fundamental aprender com os erros do passado da monazita. Isso significa investir em capacidade de processamento, proteger nossas riquezas e garantir que o valor agregado permaneça no país. A hora de mudar é agora, antes que mais bilhões sejam perdidos.