A forma como os primeiros humanos sobreviveram e prosperaram nas Américas tem sido objeto de intenso estudo. Uma pesquisa recente, publicada na revista Science Advances, oferece uma resposta clara: os primeiros americanos se especializaram na caça dos grandes mamíferos da Era do Gelo, obtendo a maior parte de sua nutrição dessa maneira.
O estudo, que analisou dados de dezenas de sítios arqueológicos na América do Norte e no Cone Sul, aponta para uma estratégia de subsistência focada. A colaboração internacional de pesquisadores, incluindo Ben Potter e James Chatters, lançou luz sobre essa característica marcante.
A Dieta Predominante dos Caçadores da Era do Gelo
A pesquisa concluiu que os primeiros habitantes das Américas eram predominantemente caçadores especializados. Eles concentravam seus esforços em um número limitado de espécies de grande porte, em vez de adotar uma dieta generalista com ampla variedade de presas e recursos vegetais.
A análise quantitativa de ossos de animais em sítios arqueológicos demonstrou uma clara predominância da megafauna. Mais de 90% da biomassa consumida pelos antigos habitantes do continente era composta por esses animais gigantes.
Os cientistas refutam a ideia de que essa predominância seja apenas um viés de preservação. Mesmo em locais onde há restos de animais menores, a megafauna ainda se destaca. No Alasca, por exemplo, ossos de espécies pequenas só são abundantes após a extinção dos grandes mamíferos.
Principais Presas Encontradas por Região
- Alasca: Maior ocorrência de mamute-lanoso, um dos ícones da Era do Gelo.
- Interior dos EUA: Predominância de outra espécie de mamute, sem a densa cobertura de pelos.
- Cone Sul (Argentina e Chile): Preguiças-gigantes e gomfotérios, parentes extintos dos elefantes.
Tecnologias de Caça Avançadas
Para caçar criaturas tão imponentes, os primeiros americanos desenvolveram tecnologias de caça altamente eficientes. Duas culturas se destacam pelos seus artefatos líticos.
A cultura Clovis, nomeada por um sítio arqueológico no Novo México, é conhecida por suas pontas de lança características. A tecnologia FPP (ponta de projétil rabo-de-peixe), por sua vez, é marcada por artefatos de pedra com formato distinto.
Ambas as tecnologias foram projetadas para serem usadas como pontas de lanças ou dardos. Essas armas eram provavelmente arremessadas à distância nos animais perseguidos pelos caçadores-coletores.
O uso dessas armas atingiu seu auge entre 13,5 mil e 11,6 mil anos atrás. As datas para a América do Norte são ligeiramente mais antigas que as da América do Sul.
O Debate da “Matança Indiscriminada” (Overkill)
A hipótese de que a caça humana contribuiu para a extinção da megafauna não é nova. A tese do “overkill” sugere que a “matança indiscriminada” foi a causa direta do desaparecimento de grandes mamíferos do Pleistoceno.
Argumenta-se que os primeiros Homo sapiens encontraram um continente sem presença humana prévia. Os animais da megafauna, sem o medo instintivo da nossa espécie, teriam se tornado presas fáceis e foram caçados até a extinção.
Essa ideia, contudo, nunca foi um consenso científico. Outros pesquisadores ponderam que mudanças climáticas intensas e rápidas no fim da Era do Gelo tiveram um papel significativo. Essas mudanças poderiam ter afetado severamente os habitats e as fontes de alimento dos grandes mamíferos.
Seja qual for a causa principal, o impacto foi drástico. Na América do Sul, por exemplo, mamíferos maiores que uma anta ou onça-pintada praticamente desapareceram, enquanto antes da Era do Gelo, animais com mais de uma tonelada eram comuns.
O Caso do Brasil: Uma Exceção?
No cenário sul-americano, o Brasil apresenta um padrão um pouco diferente. Embora haja crescente evidência de caça à megafauna em estudos recentes, sítios arqueológicos mais antigos, como os da região de Lagoa Santa, em Minas Gerais, sugerem estratégias de subsistência mais generalistas.
Essa nuance regional indica que a compreensão da dieta dos primeiros americanos pode variar. Novas pesquisas no Brasil podem revelar mais sobre a diversidade das estratégias de subsistência.