Os imponentes túmulos e monumentos de pedra que pontilham a paisagem europeia há milênios sempre suscitaram mistério. Quem eram os construtores dessas grandiosas estruturas? Graças a avanços no estudo do DNA antigo, cientistas estão finalmente traçando a genealogia desses povos do Neolítico Tardio, revelando conexões surpreendentes e desfazendo mitos sobre a disseminação cultural.
Desvendando a Herança dos Megálitos Europeus
Um estudo recente, coordenado pelo pesquisador brasileiro Nicolas Antonio da Silva da Universidade de Kiel e publicado na revista Science, analisou o DNA de 203 indivíduos sepultados em seis sítios arqueológicos na Alemanha. Os resultados mostram uma realidade fascinante sobre a organização social e a interação desses grupos.
Embora houvesse fortes laços de parentesco dentro de regiões específicas, a pesquisa indica que a disseminação dos monumentos megalíticos não ocorreu primariamente por grandes migrações de populações. Pelo contrário, a evidência aponta para a transmissão cultural como o principal motor.
“Nossos resultados mostram pouca conexão genética direta entre diferentes regiões megalíticas da Europa”, explicou Silva, “o que indica que esses monumentos não se disseminaram principalmente por migração de populações.”
Isso significa que, mesmo sem grande fluxo genético, as populações provavelmente compartilhavam ideias, práticas e conhecimentos. Essa troca de saberes permitiu que a arquitetura megalítica se espalhasse por vastas áreas, desde o Reino Unido e Irlanda até a Península Ibérica.
Quem Eram os Construtores? O DNA Responde
Conexões Locais e Migrações Familiares
Dentro do território alemão, o DNA revelou uma complexa rede de parentesco. Foi possível identificar indivíduos com laços familiares próximos, mesmo em locais separados por centenas de quilômetros.
Um caso notável é o de um pai de Niedertiefenbach cujo filho foi sepultado em Sorsum, a mais de 200 km de distância. Essa mobilidade familiar levanta questões sobre os motivos por trás dessas “migrações” individuais.
- Adoção: O jovem poderia ter sido adotado por moradores de sua nova comunidade.
- Aprendizado: Ele pode ter se mudado como aprendiz de algum ofício, buscando conhecimento em outro grupo.
- Aliança: Casamentos ou alianças sociais também podem ter motivado o deslocamento.
As sepulturas coletivas também permitiram identificar a continuidade de linhagens familiares por várias gerações, como em Sorsum, onde uma família foi enterrada no mesmo local por seis gerações seguidas. Isso sugere uma forte identidade e apego à terra.
Estrutura Social e Ritos Funerários
A análise do cromossomo Y indicou uma sociedade predominantemente patrilinear, com linhagens masculinas se repetindo ao longo do tempo. As linhagens femininas, por outro lado, eram mais diversas, sugerindo que as mulheres frequentemente se deslocavam para a comunidade do marido.
Curiosamente, a maioria dos sepultados nesses túmulos monumentais era do sexo masculino. Isso leva os pesquisadores a especular que mulheres poderiam ter tido diferentes ritos funerários, com seus corpos dispostos em outros locais ou de outras formas.
O estudo também encontrou evidências de flexibilidade nas relações reprodutivas, incluindo casos de poliginia (um homem com múltiplas parceiras). Embora não fosse uma prática generalizada, a poliginia pode ter sido restrita a indivíduos de status social mais elevado, como observado em outras culturas antigas e contemporâneas.
As construções megalíticas estudadas, que datam de 5.400 a 5.100 anos atrás, são exemplos impressionantes da arquitetura neolítica. Entre elas, destacam-se:
- Dólmens: Estruturas que hoje se assemelham a mesas gigantes de pedra, mas que originalmente funcionavam como tumbas coletivas cobertas por terra.
- Túmulos de Corredor (Passage Graves): Com um caminho estreito ladeado por grandes pedras que levava a uma câmara mortuária, muitas vezes coberta por sedimentos, formando uma colina artificial.
Mais Que Parentesco: Inclusão Social nos Túmulos
Apesar da importância dos laços familiares, o estudo revelou que a proximidade genética não era o único critério para ser sepultado nos grandes túmulos. Quase 50% das pessoas encontradas não tinham parentes diretos entre os demais mortos.
Isso sugere que outros fatores, como o status social, a afiliação a grupos específicos ou a participação em rituais, também eram cruciais para a inclusão na estrutura simbólica e sagrada que esses monumentos representavam. O DNA continua a nos oferecer uma janela única para o mundo complexo e multifacetado de nossos ancestrais.