A incerteza que pairava sobre o futuro dos lançamentos espaciais em solo brasileiro, após a falha do foguete sul-coreano Hanbit-Nano em Alcântara, chegou ao fim. A Força Aérea Brasileira, através do Centro de Investigação e Prevenção de Acidentes Aeronáuticos (Cenipa), concluiu sua minuciosa investigação.
O relatório final de 92 páginas é detalhado e didático, revelando a causa exata do incidente e indicando as medidas corretivas necessárias. Este é um passo crucial para a segurança e o aprimoramento das futuras operações no Centro de Lançamento de Alcântara (CLA).
O Incidente em Alcântara: A Cronologia da Falha
A Operação Spaceward, uma parceria entre a FAB e a empresa sul-coreana Innospace, visava o primeiro lançamento de satélites a partir do Brasil. Na noite de 22 de dezembro de 2025, o foguete Hanbit-Nano decolou do CLA.
Após pouco mais de 30 segundos de voo, uma anomalia levou o veículo a cair de volta ao solo, resultando em um fim de missão prematuro e explosivo. Os dados de telemetria foram fundamentais para reconstruir cada etapa do voo malogrado.
A Deformação Fatídica e o Impacto
Exatamente 33,42 segundos após o lançamento, a câmara de combustão do primeiro estágio rompeu-se. Houve perda imediata da integridade estrutural, interrupção da propulsão e fragmentação do veículo em quatro partes distintas.
Os destroços seguiram por inércia até atingirem o apogeu aos 44,32 segundos, antes de descerem em queda livre. O impacto final ocorreu aos 76,78 segundos, abrindo uma clareira de cerca de 40 metros de diâmetro na mata do CLA.
Apesar dos danos menores à infraestrutura, o incidente ocorreu dentro da área de segurança, sem causar baixas ou feridos.
Detalhes da Falha: Anéis de Vedação Comprometidos
A hipótese inicial de que um fenômeno atmosférico, como uma descarga elétrica, teria causado a falha foi descartada. Análises de imagens não mostraram evidências de ocorrências significativas na atmosfera.
A investigação revelou que o problema estava no desgaste gradual dos anéis de vedação do domo da câmara de combustão do primeiro estágio. O Cenipa descobriu por que esses componentes cruciais falharam:
- Instalação Duplicada: Os anéis foram instalados duas vezes. Na primeira montagem, foram comprimidos mais do que o especificado.
- Perda de Integridade: Na segunda instalação, embora com a compressão correta, os anéis já haviam perdido a capacidade de vedação eficaz devido à sobrecompressão inicial.
- Vazamento Fatal: Isso resultou em microvazamentos e, por fim, na ruptura, permitindo o vazamento de chama que condenou o veículo.
A substituição completa dos anéis junto com o domo, na segunda montagem, provavelmente teria evitado a falha.
Sistema de Segurança e Recomendações Futuras
Uma das dúvidas era sobre o sistema de terminação de voo (autodestruição). O relatório confirmou que o sistema estava funcional, mas as circunstâncias da falha não exigiram seu acionamento, conforme os protocolos estabelecidos.
Medidas Corretivas Essenciais
O Cenipa emitiu recomendações cruciais para aprimorar a segurança:
- Para Operações em Alcântara: Reavaliar os critérios para a terminação antecipada do voo, especialmente em cenários que envolvem estágios ainda abastecidos em queda.
- Para a Innospace:
- Aprimorar os protocolos de montagem do sistema de vedação, estabelecendo a substituição completa dos anéis sempre que uma nova instalação for necessária.
- Criar mecanismos para garantir que decisões de substituição parcial de componentes estruturais sejam acompanhadas de uma reavaliação sistêmica de todo o conjunto.
Um Futuro Promissor para o Programa Espacial Brasileiro
O desfecho da investigação é um ponto positivo tanto para o Brasil quanto para a Coreia do Sul. Os engenheiros da Innospace agora têm clareza sobre o que deu errado, permitindo correções precisas para a próxima tentativa de lançamento.
Para a Força Aérea Brasileira, o relatório demonstra a capacidade de investigar incidentes complexos com rigor e transparência. As lições aprendidas da tragédia do VLS-1 em 2003, que vitimou 21 técnicos e engenheiros, foram explicitamente citadas e aplicadas, fortalecendo a segurança.
Com essa clareza, elevam-se as expectativas de que a Innospace possa realizar uma nova tentativa de lançamento a partir de Alcântara no terceiro trimestre deste ano, impulsionando o programa espacial brasileiro.