O presidente Luiz Inácio Lula da Silva fez um apelo direto e incisivo à comunidade científica brasileira nesta sexta-feira (24), cobrando maior pressão por investimentos em pesquisa e educação. Em um evento exclusivo para pesquisadores da Sociedade Brasileira para o Progresso Científico (SBPC), em São Paulo, Lula afirmou que o governo, sozinho, não consegue garantir o financiamento necessário para a ciência, dada a realidade de um “orçamento muito apertado”.
A mensagem foi clara: a mobilização e a defesa ativa da ciência são cruciais para que o setor receba a atenção e os recursos que merece. O presidente destacou que a luta por um orçamento mais robusto para a ciência deve ser uma batalha conjunta, onde a voz dos cientistas é fundamental.
A Cobrança Presidencial e o Pedido de um “Projeto Convincente”
Durante sua fala na sede da SBPC, na Vila Buarque, Lula enfatizou a necessidade de os pesquisadores apresentarem um “projeto de ciência convincente”. Esse projeto, segundo ele, deve ir além dos círculos acadêmicos, sendo capaz de persuadir a sociedade como um todo sobre o valor e o retorno da pesquisa científica.
O evento ocorreu a portas fechadas, com a imprensa impedida de acompanhar o discurso, permitindo apenas a entrada de fotógrafos e cinegrafistas. Essa restrição reforça o caráter direto e específico da mensagem de Lula aos cientistas.
A Luta Contra a Percepção de “Gasto”
Lula expressou sua insatisfação com a forma como a política orçamentária muitas vezes encara a ciência. Ele criticou a visão de que a pesquisa é um “gasto”, comparando essa percepção à ausência de questionamento sobre o pagamento de trilhões em juros da dívida pública.
- O presidente lembrou sua “primeira grande briga” nos mandatos anteriores: classificar despesas com educação como investimento, e não gasto.
- Para Lula, é preciso ter “teimosia” e “determinação” para defender o que é correto na alocação do orçamento.
Essa perspectiva ressalta a importância de uma narrativa que demonstre o impacto positivo da ciência na vida das pessoas e no desenvolvimento do país.
O Cenário Atual da Ciência Brasileira e o Alerta
A cobrança de Lula ocorre em um contexto de desafios para a ciência nacional. Levantamentos recentes indicam uma redução nas divulgações científicas do Brasil desde 2021, colocando o país na 13ª posição em um ranking mundial de publicações.
Em 2023, a própria SBPC já havia emitido um alerta grave: 16 das 17 unidades de pesquisa ligadas ao Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI) corriam o risco de fechar as portas por falta de recursos. Isso incluía programas essenciais, como o monitoramento de desastres climáticos, evidenciando a fragilidade do sistema.
Ações e Apoio Governamental
Apesar do cenário desafiador, o governo tem tomado algumas medidas. Em janeiro deste ano, quase R$ 1 bilhão foi liberado para recompor o orçamento de universidades e institutos federais, valores que haviam sido reduzidos por congressistas na votação da Lei Orçamentária Anual (LOA).
Os ministros Leonardo Barchini (Educação) e Luciana Santos (Ciência e Tecnologia) acompanharam o presidente na agenda da SBPC, indicando a relevância da discussão para ambas as pastas.
A Importância da Inovação e Inclusão Social
Lula aproveitou a ocasião para elogiar figuras e políticas que, em sua visão, promoveram a inovação e a inclusão social no Brasil. Ele destacou o ex-presidente Getúlio Vargas por “romper com uma tradição conservadora” e a criação da Consolidação das Leis do Trabalho (CLT).
Outro ponto de celebração foi a política de cotas no ensino superior, citando a Universidade de São Paulo (USP) como exemplo. Lula ressaltou a transformação da USP, que de uma universidade predominantemente para “brancos, de gente de classe média”, se tornou mais acessível a estudantes de diferentes origens, apesar da persistência de críticos às cotas.
Essas referências sublinham a visão de um país que avança quando investe em seu capital humano e social, temas intrinsecamente ligados ao desenvolvimento científico e educacional.
Conclusão: Um Chamado à Ação Coletiva
A fala do presidente Lula na SBPC não foi apenas uma cobrança, mas um chamado à ação coletiva. Ele deixou claro que o futuro da ciência e da pesquisa no Brasil depende tanto do compromisso governamental quanto da capacidade da comunidade científica de se organizar, pressionar e, acima de tudo, comunicar o valor inestimável de seu trabalho para toda a sociedade. A construção de um orçamento que priorize a ciência exige um esforço conjunto e uma defesa incansável.