O Legado Esquecido: Como Curandeiras 'Bruxas' Moldaram a Medicina e Foram Apagadas da História

Por séculos, o conhecimento de cura foi passado de geração em geração por mulheres, muitas vezes de classes baixas, que dominavam o uso de ervas e técnicas de parto. Contudo, a ascensão da medicina moderna e a institucionalização da saúde vieram acompanhadas de uma brutal perseguição a essas curandeiras e parteiras, rotuladas como ‘bruxas’.

O livro “Bruxas, Parteiras e Enfermeiras: uma História de Mulheres que Curam”, de Barbara Ehrenreich e Deirdre English, agora lançado no Brasil pela Editora Elefante, expõe como esse apagamento não foi um mero acaso, mas um movimento deliberado que moldou a medicina como a conhecemos.

O Conhecimento Ancestral e a Repressão

Antes da consolidação da medicina científica, mulheres pobres e curandeiras leigas detinham um vasto saber sobre parto, ervas medicinais e cuidados comunitários. Elas foram, segundo as autoras, as primeiras empiricistas, testando e transmitindo conhecimentos que realmente funcionavam.

Em contraste, muitos médicos homens da elite acadêmica praticavam métodos hoje considerados sem base científica, como sangrias e a teoria dos quatro humores. A perseguição às “bruxas” na Europa medieval, muitas vezes com a queima dessas mulheres, visava extinguir suas práticas tradicionais.

Por que o Conhecimento Foi Suprimido?

  • Classismo: As classes mais altas recusavam-se a dar crédito a mulheres de classes baixas.
  • Patriarcado: O surgimento da medicina moderna institucionalizada levou à monopolização da prática por homens.
  • Religião: O cristianismo desempenhou um papel crucial na demonização dessas práticas.
  • Poder: A supressão visava consolidar o poder da nova elite médica masculina.

Parteiras: Segurança Ignorada e Autoridade Subvertida

As parteiras, figuras centrais nas comunidades, também tiveram seu papel crucial subvertido. Historicamente, partos assistidos por elas eram frequentemente mais seguros do que os conduzidos por médicos.

Isso ocorria porque muitos médicos não adotavam medidas básicas de higiene, como a lavagem das mãos, prática que o médico húngaro Ignaz Semmelweis só demonstraria no século XIX ser vital para reduzir a mortalidade materna.

Diferenças Cruciais entre Parteiras e Médicos da Época

  • Higiene: Parteiras não saíam do necrotério para fazer partos, ao contrário de muitos médicos.
  • Conhecimento Compartilhado: Eram autoridades em suas comunidades, trocando saberes e fortalecendo a independência feminina.
  • Segurança: Estatisticamente, os partos por parteiras eram muitas vezes menos arriscados para a mãe e o bebê.

A classe médica, ao suprimir as parteiras, refletiu e reforçou a exclusão histórica das mulheres da produção científica e da prática profissional na medicina.

A Visão das Autoras: Ciência e Tradição Aliadas

Barbara Ehrenreich, doutora em biologia celular, e Deirdre English nunca tiveram a intenção de abordar uma posição anticientífica. Pelo contrário, defendiam que o desenvolvimento adequado da medicina teria sido apoiar essas mulheres e permitir que trabalhassem colaborativamente com os cientistas, integrando conhecimentos tradicionais à ciência rigorosa.

A obra, que teve sua primeira edição em 1973 e uma segunda em 2010, ressoa fortemente no cenário atual. English lamenta que o progresso percebido em 2010 tenha sido otimista demais, diante de um retrocesso conservador na ciência e na saúde que afeta diretamente os direitos femininos.

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