A internet borbulha com figuras como a Dona Maria, o ‘Will Smith Baiano’ e a modelo Aitana. O que eles têm em comum? Todos são personas sintéticas criadas ou aprimoradas por inteligência artificial. E o mais surpreendente: a tecnologia por trás dessas criações, muitas vezes vinda da China, é acessível e permite gerar pessoas digitais em questão de minutos, moldando realidades e gerando debates.
Seja uma personalidade totalmente gerada por IA ou um humano usando a tecnologia para assumir outra identidade, a facilidade de criar esses avatares levanta questões importantes. Hoje, vamos revelar o processo e entender o impacto dessa revolução digital.
A Revolução das Pessoas Digitais: Como Funciona?
No universo das redes sociais, as personalidades sintéticas se dividem em dois tipos principais. Há aquelas criadas do zero por IA, como a modelo espanhola Aitana e a polêmica Dona Maria. Por outro lado, existem humanos que utilizam a IA para assumir outra identidade, como o influenciador Naio Barreto com seu ‘Will Smith Baiano’.
O segredo por trás dessas criações está em ferramentas de inteligência artificial que simplificam o processo. A construção de uma persona sintética se tornou surpreendentemente simples e rápida.
O Passo a Passo da Criação: Da Ideia ao Deepfake
A criação de uma persona digital envolve uma sequência de ferramentas de IA. Primeiro, o ChatGPT pode ser usado para descrever o personagem desejado. Em seguida, o Gemini gera a imagem inicial dessa persona, dando-lhe um rosto.
O passo crucial acontece com o Wan, uma ferramenta da Alibaba. Para ela, basta fornecer a foto gerada e um vídeo de uma pessoa real. O Wan, então, realiza a troca de rosto, encaixando a persona sintética no lugar do humano filmado, criando um deepfake.
- ChatGPT: Para a descrição detalhada do personagem.
- Gemini: Para a geração da imagem visual da persona.
- Wan (Alibaba): Para a troca de rosto em vídeos, inserindo a persona sintética.
Qualidade e Limitações Iniciais
É importante notar que, embora impressionante, o resultado nem sempre é uma cópia fiel do vídeo original. Detalhes como o fundo podem ser transformados, e as mãos do ser virtual frequentemente parecem irreais, com dedos que somem ou se fundem em alguns momentos.
Contudo, a capacidade geral dessa IA é inegavelmente impressionante. A tecnologia ainda está em suas primeiras gerações, mas avança rapidamente, ampliando tanto as possibilidades criativas quanto os riscos associados ao seu uso.
O Poder e os Perigos da IA Chinesa na Criação de Realidades
Diogo Cortiz, especialista na área, destaca que criações como a Dona Maria abrem espaço para moldar uma realidade que nunca existiu. Ele usa a metáfora de uma ‘caixinha de multiversos’, onde qualquer cenário pode ser fabricado digitalmente.
Essa capacidade é particularmente significativa em períodos eleitorais, onde a criação de conteúdos políticos usando deepfake pode se tornar assustadora. Candidatos podem ser feitos para se comportar ou dizer coisas que jamais disseram, influenciando a opinião pública.
Deepfakes e o Cenário Eleitoral: Uma Caixa de Multiversos
A habilidade de criar conteúdos e mídias sintéticas permite fabricar qualquer realidade. Isso é extremamente relevante, especialmente em anos eleitorais. O volume de conteúdos políticos usando deepfake pode ser alarmante, com o potencial de manipular a percepção dos eleitores.
“Você consegue criar uma realidade que nunca existiu. Isso é muito significativo, principalmente em ano eleitoral. O que vai ter de criação de conteúdos políticos usando deepfake acaba sendo muito assustador.”
O Impacto Econômico e o Debate Ético
O impacto da IA não se restringe à política. Há um lado econômico crescente, com pessoas ‘vendendo sua imagem’ para ser reproduzida digitalmente. Um exemplo notável é Khaby Lame, o maior influenciador do TikTok, que vendeu sua ‘alma digital’ por US$ 975 bilhões para a Rich Sparkle Holdings.
Essa empresa agora pode usar sua imagem, voz e gestos para criar deepfakes dele, vendendo produtos 24 horas por dia. Para Diogo Cortiz, o foco do debate deve ser menos na tecnologia em si e mais no objetivo de seu uso: entretenimento e ensino de um lado, manipulação do outro.
- Usos Positivos: Aplicações pontuais no audiovisual com autorização de atores, e treinamento de IA com imagens sintéticas na ausência de dados reais.
- Riscos: Manipulação política, disseminação de desinformação e usos indevidos de imagem.
Por Que a China Lidera na Criação de Imagens e Vídeos com IA?
Helton Simões Gomes aponta que o diferencial dessas ferramentas está na IA chinesa, que oferece recursos e permissividade não encontrados nas big techs americanas. A China domina duas áreas-chave: robótica e a IA de criação de imagens e vídeos.
Existem algumas hipóteses para essa liderança. Uma delas é o próprio modelo de desenvolvimento tecnológico chinês. Outra é a vasta fonte de dados: a China produz uma imensa quantidade de conteúdo de imagem e vídeo, que serve para treinar esses modelos.
Empresas como a ByteDance, dona do TikTok, são puramente focadas em vídeo, criando um ecossistema fértil. Além disso, a menor preocupação com direitos autorais em certas ferramentas chinesas pode acelerar o desenvolvimento, embora isso leve a processos e ajustes futuros para evitar criações protegidas.
A ascensão da IA chinesa na criação de pessoas digitais é um fenômeno com implicações profundas. Desde a personalização do entretenimento até os desafios da desinformação em períodos eleitorais, entender essa tecnologia é crucial para navegar no futuro digital. A capacidade de criar ‘realidades que nunca existiram’ nos força a questionar a autenticidade de tudo o que vemos e ouvimos online, tornando a alfabetização digital e o pensamento crítico mais importantes do que nunca.