Imagine que a inteligência artificial que impulsiona seus negócios ou serviços públicos seja subitamente desligada por uma decisão política ou comercial de outro país. Essa não é uma ficção, mas uma ameaça real que paira sobre o Brasil, dada sua profunda dependência de modelos de IA estrangeiros. O que faremos se a “torneira” da tecnologia for fechada?
Recentemente, durante o G7, uma reunião fechada com chefes de Estado e CEOs de grandes empresas americanas propôs uma coalizão de IA liderada pelos EUA. O objetivo é definir as regras de acesso a modelos de fronteira e ao comércio de chips, excluindo explicitamente a China.
A Ameaça de um “Botão de Desligar” Americano
Para o Brasil e a maior parte do mundo, ter acesso a esses modelos não significa possuí-los. O episódio do Fable 5, em que o acesso a uma IA foi restrito, é um lembrete contundente: a dependência tecnológica traz o risco de um desligamento unilateral a qualquer momento.
Essa vulnerabilidade se torna ainda mais crítica em um cenário global de disputa por hegemonia tecnológica. Nossa infraestrutura e serviços podem ser diretamente afetados por decisões externas, sem aviso prévio.
O Dilema do Brasil: Adoção versus Soberania
O pesquisador Jeffrey Ding argumenta que, em grandes revoluções tecnológicas, o sucesso não está em inventar, mas em difundir a tecnologia por todos os setores da economia. A eletricidade, por exemplo, foi inventada na Inglaterra, mas sua ampla adoção nos EUA e Alemanha mudou o jogo.
Seguindo essa lógica, o Brasil ainda pode ser um grande jogador em IA, mesmo sem desenvolver os modelos mais avançados, se promover sua adoção. O Plano Brasileiro de IA (PBIA) já contempla muitas ações nesse sentido.
Contudo, a adoção depende do acesso. E a experiência do Fable 5 expõe a fragilidade de construir uma estratégia de transformação digital baseada em tecnologia “emprestada”, sem controle sobre sua disponibilidade.
A Alternativa Chinesa: Modelos Abertos e Infraestrutura Local
Diante desse cenário, muitos países começam a olhar para os modelos abertos chineses como uma alternativa viável. Tecnologias como DeepSeek, Qwen da Alibaba e Kimi, embora não superem os modelos americanos em todas as capacidades, oferecem vantagens cruciais.
Essas soluções custam significativamente menos e podem ser rodadas na infraestrutura do próprio país. Isso significa que não há um botão externo que possa desligar a IA, garantindo maior autonomia e segurança.
Preocupação Americana com a Ascensão Chinesa
A ascensão desses modelos preocupa o governo dos EUA. Um relatório do Congresso americano, “Two Loops”, revela que sete dos dez modelos mais baixados no Hugging Face, a principal plataforma de IA, são chineses.
Além disso, um levantamento da Andreessen Horowitz, citado no mesmo relatório, indica que cerca de 80% das startups americanas já utilizam modelos-base chineses para construir suas aplicações. Isso demonstra uma mudança significativa no cenário global.
Qual o Plano B do Brasil? Construindo Resiliência em IA
Para o Brasil, a questão da soberania em IA é urgente. Depender exclusivamente de tecnologias com um “botão de desligar” externo é um risco inaceitável para a segurança nacional e o desenvolvimento econômico.
O Plano B do Brasil deve focar em:
- Diversificação de Fontes: Não depender de um único provedor ou nação para modelos de IA.
- Investimento em Modelos Abertos: Priorizar o uso e o desenvolvimento de modelos de código aberto, que podem ser controlados e adaptados localmente.
- Fortalecimento da Infraestrutura Nacional: Capacitar o país para hospedar e operar modelos de IA internamente, reduzindo a dependência de serviços em nuvem estrangeiros.
- Colaboração Sul-Sul: Buscar parcerias com países que compartilham a mesma preocupação com a soberania tecnológica.
A lição do Fable 5 é clara: acesso não é posse. O Brasil precisa construir sua própria estratégia de resiliência digital, garantindo que sua transformação por meio da IA não esteja à mercê de decisões alheias.