A Coreia do Sul, uma nação que abraçou a tecnologia de ponta, agora vê essa mesma inovação revolucionar um de seus mais antigos ofícios: a adivinhação. A comunidade de videntes cegos na Coreia do Sul, outrora um pilar de apoio e orientação, enfrenta um declínio acentuado devido à crescente popularidade da Inteligência Artificial (IA).
Profissionais como Song, que há quatro décadas oferece conselhos baseados em leituras de braile e escuta atenta, testemunham a drástica redução de seus clientes. A competição automatizada, embora carente de emoção, oferece conveniência e preços mais acessíveis.
O Declínio de uma Tradição Secular
Na famosa “vila de adivinhos de Mia-ri”, um centro tradicional nos arredores de Seul, o número de profissionais caiu de 70-80 para menos de 20. Muitos estão perdendo a batalha contra a modernidade.
Song, que ficou cega na infância e começou a adivinhar aos 11 anos, sempre ofereceu mais do que previsões. “Havia pessoas que vinham querendo morrer”, revelou. “Eu as convenci a continuar vivendo”, destacando o profundo impacto humano de seu trabalho.
A Ascensão Imparável da Inteligência Artificial
Apesar do declínio dos videntes tradicionais, o mercado de adivinhação sul-coreano continua em expansão, movimentando 1,4 trilhão de wones (cerca de 5 bilhões de reais) em 2024. No entanto, a forma como as pessoas buscam orientação está mudando radicalmente.
Clientes agora preferem a comodidade de aplicativos e chatbots de IA, que oferecem consultas gratuitas ou muito mais baratas do que as sessões de 50 mil wones de Song.
Os principais concorrentes digitais incluem:
- Aplicativos de adivinhação online: Plataformas que utilizam algoritmos complexos.
- Chatbots de IA: Ferramentas como ChatGPT e Gemini, adaptadas para leituras de destino.
O Valor Insubstituível da Conexão Humana
Apesar da eficiência da IA, muitos ainda valorizam a interação pessoal. Oh Ji-hye, uma professora universitária de 44 anos, preferiu uma consulta telefônica com Song, afirmando: “Foi bom ter uma pessoa, e não uma IA, concentrada em ouvir minha história”.
A profissão de vidente, historicamente, fornecia emprego e dignidade para pessoas com deficiência visual, especialmente mulheres. A experiência de vida de Song, que viu a Coreia do Sul evoluir de um país devastado pela guerra a uma potência tecnológica, ressalta a importância do contexto e empatia.
A diferença entre as abordagens é notável:
- Consultas Humanas: Oferecem escuta ativa, suporte emocional, e conselhos baseados em experiência de vida.
- Consultas com IA: Proporcionam rapidez, baixo custo, e acesso imediato a informações, mas carecem de nuance emocional.
Enquanto a Inteligência Artificial avança, o dilema permanece: pode a conveniência tecnológica realmente substituir o calor humano e a profunda compreensão que um vidente tradicional oferece em momentos de vulnerabilidade? O futuro da adivinhação na Coreia do Sul, e talvez no mundo, dependerá dessa resposta.