A proliferação de deepfakes representa hoje um dos maiores desafios para a veracidade da informação. No Brasil, onde a criação e o consumo de conteúdo gerado por Inteligência Artificial (IA) são altíssimos, a dificuldade em distinguir o real do sintético é crescente.
Nesse cenário, a empresa brasileira InspireIP emerge como uma importante aliada na “caça” a essas manipulações. Ela utiliza uma tecnologia desenvolvida pelas próprias big techs, mas que, ironicamente, elas mesmas parecem relutar em implementar plenamente.
A Ascensão da Ameaça Deepfake no Brasil
A realidade digital brasileira é alarmante: oito a cada dez brasileiros já se depararam com fotos e vídeos sinteticamente modificados. Isso é o que aponta uma pesquisa recente realizada pela Kantar e Veriff.
Além disso, quase 60% dos entrevistados no Brasil já criaram imagens com IA, superando americanos e britânicos. Contudo, o estudo revela que a maioria não consegue diferenciar o conteúdo artificial do autêntico.
InspireIP e a Tecnologia C2PA: Uma Arma Contra a Falsificação
O que é a InspireIP?
Criada em 2020 pela advogada Caroline Nunes, a InspireIP inicialmente focava em propriedade intelectual, utilizando blockchain e contratos inteligentes para proteger objetos digitais.
A chegada da era da IA, no entanto, redirecionou sua missão para a autenticidade de conteúdo, especialmente para combater o uso indevido por chatbots e ferramentas de IA.
O Protocolo C2PA: A Solução das Big Techs
A InspireIP encontrou sua principal ferramenta no protocolo C2PA (Coalizão para Autenticidade e Origem de Conteúdo). Esta é uma iniciativa de gigantes como Adobe, Microsoft, Intel, e posteriormente Amazon, Google, Meta, OpenAI e TikTok.
Este protocolo insere um rótulo digital invisível em imagens, vídeos e áudios, registrando todo o histórico de edições, incluindo modificações feitas por IA. A InspireIP tornou-se a primeira brasileira a licenciar essa tecnologia em maio deste ano.
O serviço SignaIP, da InspireIP, verifica o certificado C2PA das imagens para atestar se houve uso de IA nas edições. Sua função primordial, contudo, é atribuir certificações digitais de autoria e procedência.
Isso permite que criadores exijam a remoção de conteúdos indevidamente utilizados por IAs. A fundadora, Caroline Nunes, expressa uma motivação pessoal forte: “Eu penso em ter filhos e estava ficando sufocada com o fato de não conseguir proteger as fotos do meu futuro filho.”
O Descado das Big Techs: Falhas na Implementação
Apesar do comprometimento das grandes empresas com a C2PA, a implementação plena e atualizada da tecnologia é baixa. Atualmente, apenas 52 produtos usam essa versão, sendo 19 do Google e apenas um da OpenAI.
Este número é ínfimo diante dos mais de 5 mil membros da iniciativa, indicando uma lacuna preocupante entre o compromisso e a prática.
Testes Revelam Inconsistências Alarmantes
Testes recentes com o SignaIP da InspireIP expuseram o descaso de algumas das principais plataformas de IA. Os resultados são contraditórios e preocupantes:
- O ChatGPT gera imagens com C2PA que acusam o uso de IA.
- O Gemini, do Google, remove essa informação do certificado C2PA nas imagens que gera.
- Ambas as ferramentas ignoram edições anteriores ao criar novos conteúdos a partir de mídias já existentes.
- Os processos de geração e compressão de imagem dos serviços da Meta (como o Meta AI) aniquilam completamente os manifestos C2PA.
Essa permissividade das plataformas explica em grande parte por que somos constantemente bombardeados por deepfakes, mesmo com as ferramentas de detecção existindo.
O Cenário Brasileiro e as Regras do TSE
Diante da crescente desinformação, o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) brasileiro já estabeleceu regras claras para o uso de IA nas eleições de 2026. Estas visam garantir a integridade do processo democrático:
- Todo conteúdo de propaganda eleitoral criado ou alterado com IA deve ter um aviso claro e visível de sua origem sintética.
- Deepfakes que alterem voz, imagem ou manifestação de candidatos são proibidos de circular nas 72 horas antes e 24 horas depois da votação.
- Chatbots de IA não podem recomendar, favorecer ou ranquear candidatos ou partidos envolvidos nas eleições.
Embora as plataformas tenham a obrigação legal de identificar conteúdo gerado por IA, a efetividade dessas regras depende da cooperação e da seriedade na implementação de protocolos como o C2PA.
O Caminho para a Autenticidade Digital
Para que o rótulo C2PA funcione plenamente, é essencial o comprometimento irrestrito de todas as empresas envolvidas na cadeia de criação e distribuição de conteúdo digital. Isso inclui fabricantes de dispositivos, processadores de imagem, marketplaces e, crucialmente, as plataformas de distribuição como redes sociais e serviços de streaming.
A luta da InspireIP, uma “caça-deepfake” brasileira, destaca a urgência de uma implementação séria e universal das ferramentas de autenticidade. Somente assim poderemos proteger a verdade em um mundo cada vez mais digitalizado e propenso à manipulação.