A ameaça de novos surtos virais paira sobre grandes centros urbanos, muitas vezes invisível e silenciosa. Em São Paulo, o Institut Pasteur está dando um passo fundamental para combater esse risco, lançando um projeto inovador de monitoramento de ratos. O objetivo é claro: identificar vírus que circulam nesses animais e que possuem potencial para infectar humanos.
Essa iniciativa visa mapear os perigos antes que se transformem em epidemias, protegendo a população paulistana de futuras emergências de saúde.
A Lacuna na Vigilância Viral Urbana
Atualmente, o monitoramento de patógenos em roedores urbanos foca principalmente em bactérias, como as causadoras da leptospirose. Contudo, a circulação de vírus nesses animais permanece em grande parte desconhecida.
Segundo Robert Andreata, biomédico coordenador do projeto, a ausência de monitoramento viral não significa que não existam doenças virais importantes. Um exemplo conhecido é a hantavirose, mas sua vigilância em ambientes urbanos é infrequente.
Estudos semelhantes já foram realizados com aves e morcegos, mas a vigilância viral em roedores – animais com contato direto ou indireto com humanos – representa uma lacuna no Brasil.
O Risco do “Spillover”
Roedores são conhecidos por serem reservatórios de diversos patógenos. Em determinadas condições, esses animais podem transmitir microrganismos para humanos, um fenômeno conhecido como “spillover” ou transbordamento.
Esse processo pode levar ao acúmulo de novas mutações, dando origem a surtos e epidemias. O projeto do Institut Pasteur busca precisamente mapear esse cenário de risco.
Como o Projeto Será Executado
O projeto, aprovado no final do ano passado e com apoio da Fapesp, aguarda a formalização de um convênio com a Covisa (Coordenadoria de Vigilância Sanitária) da Prefeitura de São Paulo para iniciar a captura dos animais.
As amostras serão coletadas de duas espécies comuns na capital: o Rattus rattus (rato-preto) e o R. norvegicus (ratazana de esgoto).
Locais de Coleta e Análise Laboratorial
A coleta será focada em “hotspots” da cidade, áreas de alta infestação onde o poder público já atua no controle populacional desses roedores. Esses locais geralmente possuem:
- Condições sanitárias precárias, como falta de tratamento de esgoto.
- Ambientes quentes e úmidos, favoráveis à proliferação de patógenos.
- Maior facilidade de contato entre humanos e animais.
Nos laboratórios do Institut Pasteur, Andreata e sua equipe realizarão uma análise detalhada. Eles pretendem extrair, amplificar e sequenciar o material genético presente nas amostras.
As técnicas empregadas incluirão a triagem baseada em sequências conhecidas e abordagens mais amplas, como a metagenômica. Esta última permite detectar vírus até então desconhecidos ou não associados a roedores.
Infraestrutura e Próximos Passos
Inaugurado há dois anos no campus da USP, o Institut Pasteur de São Paulo é especializado no estudo e combate a doenças emergentes e reemergentes. A instituição conta com uma infraestrutura de ponta, incluindo:
- Laboratórios de biologia molecular (PCR em tempo-real, PCR convencional, sequenciamento de próxima geração).
- Três laboratórios de biossegurança nível 3 (NB3), essenciais para a manipulação segura de vírus e materiais biológicos contagiosos.
A primeira etapa da pesquisa, que prevê a coleta de até 400 roedores, depende da formalização do convênio e do treinamento das equipes de captura.
Visão de Longo Prazo e Impacto Social
Além de identificar os vírus circulantes, os pesquisadores planejam desenvolver ferramentas de diagnóstico para os microrganismos detectados. Isso permitirá à saúde pública identificar rapidamente vírus em pessoas com quadros leves, mas que podem estar ligados a doenças emergentes.
Andreata enfatiza a importância de conectar a ciência à sociedade. “Sempre busquei criar projetos que fossem facilmente implementados para a sociedade”, afirma. Com esta pesquisa, São Paulo pode se tornar um modelo global na vigilância de zoonoses virais.